sábado, 27 de abril de 2013

Afago


Uma taça de vinho, Chico Buarque na vitrola, livros abertos mendigando serem lidos e uma sensação de falta impregnada nas paredes. Sinto que dentro de mim existe um espaço em branco. É uma dor atormentadora, que não sei onde começa e onde termina... se é que termina.
 Às vezes vago pela noite, agora sóbria e ainda sozinha. Aliás, a solidão sempre foi minha companhia preferida e minha amante esperada. Somos companheiras e camaradas. Dançamos no meio da noite, transamos luxuriosamente, gargalhamos embriagadas e enquanto o dia não vem, ela me conta histórias e vigia meu sono.
A solidão é parte constitutiva de minha alma. Sei que sempre voltarei para os seus braços. A última dança sempre será nossa.
Que coisa estranha. Tantas histórias, tantos amores, tantas recordações... mas no fim de tudo sempre estou num quarto escutando Chico e brindando minhas vitórias diárias com ela.  Ou andando na praia segurando sua mão. Ou ainda desbravando as noites sertanejas com seu cheiro entranhado em meus cabelos.
Não há como fugir. Somos siamesas. E eu dependo dela para existir. Preciso tocar sua boca vermelha e atroz. Dependo dela. Preciso de seu toque no meu sexo.
Ela fulmina meu olhar e ler todas as minhas idiossincrasias. Rasga minhas mentiras.   Vomita nos meus sonhos.
Me bate na cara, puxa meus cabelos, rasga minhas vestes e me joga na sarjeta. E eu? Corro atrás dela desesperada, me humilho e transponho. Rogo pela sua presença. É o único amor que conheço.
Somos feitas de sangue e cerveja. E ela sempre volta. Tal qual menina carente. Todos a rejeitam, mas eu não. Desejo sua presença, pois esta é meu sustentáculo.
Daí chamamos a Maria Bethania e dançamos juntinhas. Ela deita ao meu lado e dorme comigo de conchinha. Depois se vai como todos os homens e mulheres que me amaram. Mas quando a noite chega ela retorna com um bom vinho e louca para me despir.

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