quinta-feira, 19 de abril de 2012

Reflexão de Emanuele Chaves sobre o mestrado

Ao concluir dois anos de Mestrado, você se torna um ME... Um merda!

Estive nos últimos dias pensando no tempo. E só posso reafirmar que ele é de fato relativo. Pensar sobre isso me tem sido ora um ácido, ora um bálsamo ao coração.
A gente só pára a pensar no tempo, quando julga estar sem ele! E não se enganem que são os prazos do mestrado que estão me conferindo estas reflexões. Olhem só, os prazos ajudam a refletir!

Em primeiro lugar, pensei como o tempo para se tornar um Mestre é reduzido em relação aos outros cursos, apenas dois anos. A Graduação geralmente quatro anos e o Doutorado também. Não menciono aqui as especializações porque as considero (talvez por preconceito) um aprofundamento sobre um tema específico (na prática, o Mestrado não tem sido muito diferente).

Retornando, mas como, só dois anos para se formar Mestre? Quem inventou esta lógica e o que está por traz dela? Verificando que a Graduação, por mais esforço que se faça em pesquisa, tem o objetivo central de formar profissionais. Então precisaríamos de um tempo maior para apreender com mais coerência os conteúdos de Pesquisa e reformular os nossos pontos de vista, nossas concepções ideopolíticas.

Daí os departamentos de pós-graduação, juntamente com os órgãos de fomento de pesquisa, nos dizem:
- Tudo bem! Você receberá uma “gorda” bolsa de um mil e duzentos reais só para se dedicar ao mestrado!

Muitos de nós respondemos:
- Oba! Tenho dois anos de tranquilidade só par estudar, para me dedicar a mim mesmo!

Seria verdade, se o ato formular e reformular-se, de conhecer, de tornar-se não fosse tão contraditório!
Inicialmente, nós vamos logo procurando investir a “farta bolsa” para pagar aluguel e alimentação. Muitos de nós tivemos de sair da casa dos pais, pois viemos de longe para estudar ou até já estamos de saco cheio da vidinha de adolescente. Além de profissionais formados, temos uma visão de mundo que em geral destoa dos nossos familiares, com seus conhecidos padrões.

Acresce-se a isto que nós mudamos e já temos mais consciência que a vida pode ser melhorzinha. Nós agora achamos ruim comer cuzcuz, cachorro quente e coxinha todos os dia. Também não é legal beber cerveja quente e vestir roupa com buraco, todas estas infelicidades que não incomodavam tanto na graduação. E outra, para produzir faz-se necessário silêncio, solidão, paz...
Sim, para quem conseguiu essa paz infernal, mais ainda para quem não conseguiu... Terapia! E isso custa um ou dois e até três olhos da cara, meu bem! Então, nos resta tomar cerveja, muita cerveja. Conhecer já não é fácil, ainda mais nas nossas condições e com os temas que escolhemos (só mazela!).

Ah sim, cerveja não é barato e ainda pode trazer uma culpa danada. Principalmente se substituir a velha e dispendiosa terapia! Qual remédio? Mais cerveja, cana, whisky, run, alfazema...
Tratando de outras questões menos imediatas. Falamos da conjuntura política na qual vivemos agora. Um marasmo total, um prozac coletivo. Muitos até falam em crise de identidade, prefiro dizer crise de associação, de estratégia política. E como não estamos alheios ao mundo, até porque nossos estudos são sociais, não dá para negar o esforço que temos que fazer em nos redefinir, reafirmar-se ou afirmar algo nesta conjuntura.

Não falei do que nos é exigido em troca da rica bolsa de estudos, não é? Tem que publicar, viajar (e agora nem tem mais alojamento do ME) para apresentar trabalhos, assistir palestras, não faltar às aulas e ainda, não poderá fazer outra coisa a não ser escrever dissertação. Contraditório? Impossível?

Ai, ai, bolsistas, cuidado! Vocês não venderam a alma ao diabo (este promete sucesso aos seus clientes). Você vendeu a alma a Deus! Aos deuses do conhecimento encastelado, da burocracia, do saber sem vida pulsante! E este deus ainda te diz, como é de praxe, que sua mísera bolsa não é um direito é uma GRAÇA e divina! E ainda, a culpa é sempre sua pelos pecados de querer ser autêntico, de escrever algo realmente original, de dedicar o tempo a ociosamente pensar, ler/fazer poesia e fazer sexo!

Enfim, ao menos que vendas a alma ao diabo, correndo o risco da sua dissertação ser entregue magrinha e/ou fora do prazo, ao final de dois anos de mestrado serás um ME... um MERDA! E com diploma.

Emanuelle Chaves Pinto





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