quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fé e luta

p.s: Esse texto é um afago no coração de uma pessoa que está muito desestabilizada com a inercia que o sistema a impõe.

Hoje vou ousar. Sim. Arriscarei falar em socialismo. Essa palavra que produz pânico nos ultraconservadores de direita, tem sumido dos movimentos de esquerda e muitas vezes transforma-se em jargões dos manuais dos desesperados. Merece voltar ao centro de nossa reflexão. Trago como ordem do dia o desafio de pensar na máxima de Marx e Engels: Trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro: uni-vos.
Mas por que mencionar o socialismo pós-queda do Muro de Berlim? Ao que consta na história contada pelos que venceram, o socialismo foi uma experiência que não deu certo e foi – logicamente – substituída por um projeto possível de sociedade, em que reina a sociedade civil organizada na lógica destrutiva, o Estado mínimo, o espetáculo, o consumo, a flexibilidade, a obsolescência programada. Na verdade, a dita “morte das utopias revolucionárias” nos programou, robotizou e usurpou a nossa capacidade de sonhar. Como diz Galeano “somos programados pelo computador”. Programados a não sentir, amar, sonhar e lutar de verdade.

Reivindicam direitos, seja de consumir água, roupa, educação, saúde, cultura de massa ou lazer, no lugar de lutar por uma sociedade emancipada. Sim. Emancipada de toda forma de propriedade. A palavra LUTA saiu de nosso vocabulário militante, ou seria militonto.
Certamente, os leitores de meus escarros de pessimismo vão pensar: mais uma reflexão dramática.
De fato, vejo-me constantemente rodeada de falas que não significam absolutamente nada, são meros devaneios doidos a me torturar como dizia a poesia. Apenas frases desconectadas e sustentadas pela retórica e pelo discurso. Coloca-se de cabeça para baixo o bom e velho Marx e deturpam sua análise, diga-se de passagem acertada, de que a matéria precede a idéia, e sendo assim, a prática antecede a teoria.

Mesmo que tudo pareça estagnado, com sindicatos paralisados, trabalhadores sem trabalho, movimentos cooptados, partidos e corações destroçados. Ainda que a educação massificada emburreça cada dia mais a classe que vive do trabalho e reproduza a ideologia dos que dominam. Mesmo que o Chico Buarque seja um ilustre desconhecido da grande massa amorfa e seja escutado nos carros importados de quem pode pagar 380 reais pelo seu show. Embora Galeano não possa ser recitado no horário nobre, a política não seja cultuada como arte e o Marx esteja aprisionado nas universidades sendo discutido por marxistas de armário que nunca participaram nem do Centro Acadêmico de sua faculdade.  Apesar de todas estas questões, e até outras que não estão aqui apontadas, e que eu, conhecidamente, seja uma pensadora pessimista. Esse texto é apenas uma pergunta otimista: como faremos para mudar o mundo?
Como – coletivamente – vamos reconstruir nossa capacidade de fazer do trabalho algo que transforme a natureza e os seres humanos sem produzir alienação? De que forma vamos desconstruir tudo que nos desumaniza, seja a pobreza, a ignorância ou inércia? Quando iremos nos juntar para construir uma sociedade sem leis, estatutos e prisões? Como nos uniremos para colocar os tijolos de uma nova terra em que o judiciário não precise dizer que é crime maltratar animais, dá palmada em crianças, ou ainda espancar mulheres, negros e homossexuais?

Respostas? Não tenho. Mas tenho fé. De que “nós somos do tecido de que são feitos os sonhos” e é por isso que uma voz crítica e dissonante do sistema, por mais debilitada, perseguida e desestimulada que ela esteja, sempre vai encontrar uma voz em que possa construir uma dupla, depois um trio, e após muita luta, um coral de vozes rebeladas.
É por isso que a esperança é uma das características mais importantes de um rebelde. A esperança e a capacidade de sonhar.

É a partir daí que tenho convicção política e fé na luta de que mudaremos o mundo. É uma questão de tempo e militância.




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