quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Disritmia

Cheguei em casa de mais uma noite de boêmia e me olhei no espelho com saudades da felicidade que um dia em minha alma habitou. No fundo o Cartola canta insistentemente: “a sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida. No fim da tempestade o sol nascerá...”. Rezei. Chorei desesperadamente até ficar com dó de mim como diria Chico, até dormir, e, caí no sono com um gosto de morte na boca.
Será que o sol nascerá mesmo? Minhas lágrimas diárias e noturnas vão desaparecer? Meu sorriso vai voltar?
Quem sou eu sem minhas autênticas e sonoras gargalhadas? Quem sou eu sem minhas palhaçadas, mungangos e piadas? Quem sou eu sem minhas trovas? Quem é essa que remoi coisas pequenas e conversas de botequim?
É muito melancólico e até simplório perceber que se chegou aos trinta com tanta infelicidade, adversidade e infortúnios. O lugar onde estou apenas sintetiza tudo isso, entretanto isso não pode ser exposto. As ideias não podem sair de minha cabeça congestionada...ficam entaladas na garganta. Essa dor incomensurável tem que ficar dentro de mim? Justo eu, que sempre adorei cantar amor febril?
Sigo normas de conduta, regras, ditos e reditos que me dizem para ser disciplinada, vestir assim, agir assado... silenciar, falar, rir, amar... Robotizei-me. Vago com o olhar baixo, derrotada, pequena, apagada, estática, careta, sem coragem.  O medo se tornou uma palavra corrente no meu vocabulário.
Eu era tão feliz e tão destemida. Mas isso agora só vive nas minhas memórias.
Adestrei meus sonhos, minha militância, minhas paixões, a minha tão amada irreverência... Perdi o gosto pela arte de educar, perdi o gozo descomprometido, vendi meus valores, e, onde estou? Como estou? Para onde vou Marx?
Soluço em forma de verso e de reverso. Prosas de ilusão. Frases em disritmia. É isso?
Me devoram todo dia um pouquinho mais, e, não é a paixão. Passo os dias vegetando, as noites me embriagando e as madrugadas chorando e procurando a Suamy perdida.
Leio textos que não quero ler, escrevo coisas que não quero escrever, transo com gente que não me incita lascívia, escuto coisas que para mim são verdadeiras aberrações, os meus pares  me ridicularizam... Passam os dias no meu quarto escuro e quando saio dele uma nuvem nublada me persegue, amedronta e disciplina.
Não fale! Não sinta! Não pense! E agora Marx? Que fazer? Como diz o Cazuza: “estou cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar.” Ou como rima o Chico: “olhe a voz que me resta... deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa e qualquer desatenção: faça não. Pode ser a gota d’água”.
Ando pelas ruas como quem caminha para a morte. Fones no ouvido, óculos escuros e o desejo implícito de não falar com ninguém. Logo eu que sou tão tagarela? Tão oral, tão feliz... Sempre me orgulhei por ser uma pessoa feliz... O mundo caia e minha felicidade estava lá – inabalável. Agora não sei mais quem sou.
O meu único e melhor amigo é o Marx. Antigamente ele me visitava em sonhos todas as semanas e tínhamos verdadeiras conversas filosóficas... Agente debatia no bar de George – em Moskowzinha de meu coração - e na companhia do Cazuza e da Maysa, ríamos como quatro crianças e bebíamos uma Skol bem gelada. Era um sonho recorrente. Eu acordava indagando se era sonho ou se tinha sido uma visita dos três. Agora nem com eles eu sonho mais. Eu não sonho mais. Até o Marx me abandonou.
Noites perturbadas... Sono atrapalhado... Insônia... e, músicas para se matar. Socorro!!!! Escrevo para não morrer ou escrevo como quem morre? Estou visivelmente infeliz... Aliás minha melancolia fulgura em todos os lugares. É desumano.
 Por onde anda a mulher destemida que sonhava em ser professora, em mudar o mundo, em fazer uma apaixonada revolução? Cadê a jovem que furava a aula de estatística para tomar uma cerveja na frente da UERN e entusiasmada defendia o socialismo? Onde está a menina que ia todo fim de semana para Canoa Quebrada e quando chegava lá olhava abestalhada as falésias como se fosse a primeira vez? Onde se escondeu a Suamy ateia que dia 02 de fevereiro levava rosas vermelhas, perfumes e mimos para Yemanjá? Cadê o meu olhar encantado com uma pergunta ávida? E a palhaça que se diverte dando cantada brega em Elder? Cadê minha menina?
Cadê a Susuca Will? Eu não me reconheço no espelho. Eu desconheço essa mulher. Onde está meu riso, minha manha, meu canto, meu samba?
Aparece menina. Volta para esse corpo menina arteira, medonha e apimentada.
Sinto que a morte tem me rondado sorrateira. Não vejo saídas.
Mesmo assim cantarolo o batuque da ciranda: “[...] Eu já pedi a Oxalá, meu pai Ogum e Yemanjá, mamãe Oxum e todas as crianças, pra me dizer o que fazer, pra minha fé eu não perder, olhar pra frente e sempre acreditar. Oia Xangô! E lá na mata com Oxossi, no meio da natureza e no brilho do sol na cachoeira, e, na passagem do milênio eu já pedi saúde, paz, amor e muito axé. A chuva cai fico contente, um raio forte cai na minha frente para confirmar que ela está aqui: é guerreira Iansã...Iêpaê Iansã”.
Iêpaê Iansã...
 Tenho que exorcizar essa tristeza que não me pertence.