sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Onde está o belo do mundo?

Um comentário do meu blog me deixou meio pensativa nos últimos dias. Será que realmente eu só enxergo o feio e triste do mundo? Seria eu uma pessimista incurável? Ou uma realista mal interpretada?
O fato de me angustiar com o mundo e a sua fatídica hipocrisia não quer dizer – de forma alguma – que eu não veja a beleza e a leveza contida nas coisas. Destacar a escuridão não significa – necessariamente – que você não aprecie a luz. Gostar de praia não representa ódio a serra. Não mesmo!
Porque as coisas são vistas de maneira tão dicotômicas? Se o real é a síntese de múltiplas determinações como já disse o bom e velho Marx, então, eu posso pegar desse real o que mais me chama atenção sem que as outras partes constitutivas dele sejam negadas... Sei lá...
Na verdade, esse comentário no blog - muito bem vindo, diga-se de passagem – me fez suspender meu cotidiano assoberbado de atividades e repensar algumas coisas belas que meus olhos já tiveram o prazer de admirar e minha memória congestionada de registrar.
Quase que imediatamente veio o cheiro da minha infância... a recordação de minha bicicleta azul...minha Irma e meus primos crianças...a minha rua cheia de pirralho brincando de esconde-esconde...a sala do pré-primário na Funcern...
Tanto encantamento estava escondido em minha memória engarrafada de textos marxistas. Assombrou-me... Acho que minha alma atormentada e sem estrada pra fugir acostumou-se a denunciar o lixo do mundo... Seria eu uma marxista-feminista ranzinza? Seria eu uma obcecada pela tristeza? Só sei divagar sobre a melancolia? Não tenho respostas, voltemos ao resgate do belo perdido...
Rememorei a primeira vez que vi o mar, aquele momento detinha uma ternura e um esplendor indescritível, até hoje meu sentimento de abestalhamento e admiração ao mar não cabe em poesia e muito menos em prosa...
E o gosto do meu primeiro beijo? E do último a quinze dias atrás? “Beleza pura” como diria o Caetano...
Vixê...relembrar o belo é despertar coisas que talvez nem devam mais ser lembradas...Quanta beleza havia naquela negritude me abraçando nas noites sertanejas...quanto magnificência há na tintura vermelha das falecias de Canoa quebrada, na bucólica rua Aurora, e nos cinzentos arranhas céu paulistanos...e quanta beleza há na sopa quentinha de minha avó...no baião de dois na casa de Mainha...na risada de tia Santana...quanta poesia esta contida nas areias coloridas de Tibau, ou até no cheiro de um livro novo?
É excitante, saudosista e triste falar de beleza... Quanta beleza existe no meu Mengão jogando... Fla x Flu no maracanã... na paixão dos adolescentes...em uma Skol geladíssima no bar de Magnos na companhia de Jean Galdino?
Num poema de Drummond... num verso de Chico...na paquera...numa ligação inesperada...na densidade de Marx...na revolução do MST...na rebeldia do movimento feminista...no orgasmo...num filme francês...em Recife... numa despedida... numa conversa de botequim...numa gargalhada...num samba...nos olhos amendoados de meu amado... a beleza está em tudo e em todos...
E, é exatamente por ver o belo da vida que tenho que apontar a possibilidade de seu esgotamento...