quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os meus 18 anos

Estive refletindo acerca das minhas divagações filosóficas e o pessimismo a que elas se articulam. Então resolvi socializar um texto um pouco mais leve, e, não menos filosófico, que mistura verdades e ficção, algumas minhas, outras de amigos ou das minhas lembranças inexistentes.
Qualquer coincidência - por favor desconsiderem. Este texto é de FICÇÂO.


Os anos vão se passando e revelando sentimentos confusos e conflitantes. Hoje por exemplo sinto saudade dos meus 18 anos, mas quem nunca parou para relembrar a docura desta idade? A rebeldia intrínseca e extrinsíca dos 18 anos?
Eu, por exemplo, aos 18 anos era magricela, muito beata e as vezes emílica. Conjugava em mim o avesso e o direito. Confesso que me apegava religiosamente a algumas coisas que o “santo” padre falava, na realidade de santidade ele não tinha nada, apregoava castidade, contudo, mantinha um romance com um coroinha da igreja. Tem coisas que só compreendemos perto dos 30.
Ademais, aprendi que numa pequena comunidade conjugar o verbo “trepar” pode trazer problemáticas para reputação que nem o melhor marketeiro do mundo conseguiria reverter. De certo, engrosso as fileiras das mulheres reprimidas sexualmente pela igreja, pela comunidade e principalmente pela família.
Recordo-me que aos 12 anos por ocasião de minha primeira eucaristia fui confessar-me ao “santo” padre que me indagou implacavelmente. Ou seria interrogou?
- Você fez alguma coisa de errado?
Eu, inocentemente, respondi que retrucava minha mãe. Ele solenemente me perguntou de forma mais aberta:
- você já fez inxirimento?
Eu repondi que não, mas a partir daquele exato momento descobri que sexo para muita gente era coisa errada e feia. Simbologia que ficou embricada em mim, por muito tempo, mesmo com todas as leituras críticas que fazia.
Comecei a querer mais do que beijinho na boca e sarros tediosos e santos na sacristia da igreja, concomitante ao momento da descida do espírito santo em mim – por intermédio da unção do bispo. Novamente fui confessar-me. Desta vez com outro padre, um senhor de mais ou menos 50 anos que – de acordo com as más línguas – transava com as coroinhas, tinha um affair com a secretaria da paróquia e fazia orgias homericas em sua casa de praia. Logicamente, são fatos que só tive conhecimento depois de balzaquiana e ateia.
Este senhor era imponente e eu permaneci calada sem saber o que dizer, quando fui baleada frontalmente:
- você fez algo de errado que queira me contar?
E eu, já com o germém do marxismo e um pouco de tensão pré-mestrual, respondi:
- o que seria errado para o senhor?
Ele, afrontando minha petulância me falou:
- você já fez algo de errado com os meninos? Ou quem sabe sozinha? Já pegou nas partes de algum menino? Eu falei prontamente: não, mas tenho muita vontade de fazer.
O padre me deu um sermão de uma hora e mandou-me rezar um rosário, o que despertou a curiosidade de todos os outros jovens. Penso eu que eles imaginavam: o que ela fez para receber uma penitência tão longa?
Dois anos depois estava lendo de Mariazinha a Maria um livro sobre sexo de Marta Suplicy, que certamente hoje não tem para mim serventia teórica, cedido por uma noviça baiana que se apaixonou pelo garoto que eu era encantada.
Traumas a parte, os beijinhos e sarros continuavam cada vez menos castos e puros, até que conheci alguém muito especial. Um momento para uma breve nota de rodapé: quando temos dezoito anos todos os homens são especiais, perto dos 30 se eles não forem carecas, sacanas e barrigudos e tiverem vários filhos e amantes já é uma vantagem. Enfim...e voltando ao assunto ele era muito especial, uma mistura autêntica de poesia e carnaval e nós nos apaixonamos. Começamos a namorar e depois de algum tempo resolvemos conjugar e materializar o verbo “trepar”. Fomos a casa dele e estavam presentes todas as ansiedades do coito inicial, mas como já estávamos craques na arte de sarrar, muito mais do que o Robinho na de pedalar e do que o Lula na de se candidatar, trepamos sem muitas delongas.
Aquele gozo clandestino dos 18 anos que hoje não tem a mesma subversividade. Meus olhos marejam quando lembro da inoscência daquele momento e também do medo de ser desmascarada, até porque minha mãe dizia que mulher descabaçada se conhecia pelo andar e os meninos do colégio diziam que era pela sombra. Eu sem conhecimento de causa fingi uma doença por uns dias, e o pior que nessa história acabei doente de verdade e por duas semanas. O fato é que quando voltei para a escola ele tinha pedido transferência e eu quase morri de desgosto como o Castro Alves, o mais engraçado é que algum tempo depois nos reencontramos e a paixão reascendeu, o que comprova minha histórica falta de sorte com os exemplares masculinos.
Depois dessa decepção mais sexual do que amorosa resolvi me confessar novamente com o padre, já que ele era obrigado a ouvir e a manter o assunto em sigilo confessional, e todo mundo sabe que quando agente conta algo a um amigo e diz que é segredo em três dias a escola toda já está sabendo. Fui lá na igreja e o padre me recebeu com a cara o que é que você fez de errado? Contei tudo e ele começou a falar de castidade, Maria, pecado e conversão, e me colocando na parede perguntou se eu me arrependia. Eu imediatamente disse que não e ele, como legítima autoridade eclesial, não pôde fazer o canal direto com Deus para me perdoar. Contudo eu voltei orgulhosa para casa. O gosto de rebeldia sempre me excitou.
O fato é que meus 18 anos ainda me preparavam uma surpresa encantadoramente carnal. Três dias após a confissão e a negação de Deus em me perdoar, comunicada pelo padre, eu fui a um encontro de líderes da juventude, nessa época eu achava isso importante, como hoje não tenho mais pretensão de entrar no céu, isso é uma bobagem. Nesse encontro conheci um jovem seminarista e me encantei. O bacana da juventude é que você pode sofrer por alguém três semanas mas esquecê-lo em dois segundos.
Aquele cara era o máximo, e se eu pudesse teria transado com ele ali mesmo, mas nesse dia nem telefone trocamos. Que bom que a igreja é um covil de gente pecadora e fulera, uma semana depois meu telefone toca e em um mês já estávamos no momento de apaixonite aguda, impulsionada pela minha beatice. Como eu era líder dos jovens tinha que viajar para os encontros e ele também, num certo dia de pecado, numa longíqua cidade do sertão e aos pés de São Francisco ou melhor em sua sacristia, eu e o seminarista transamos até cansar. Depois ele ficou meio arrependido e com medo de ser castigado, eu já tinha sido impedida de receber o perdão divino pelo padre e isso, em certa medida, me alforriava.
Alias aquilo tudo me excitava visceralmente, o que comprova minha capacidade de me encantar pela desordem. Hoje percebo que nossas inclinações sexuais não podem causar medo.
Passei um longo período transando com o seminarista e algum tempo depois com o pervertido recém padre, e era delicioso, pois tinha um clima de romance proibido, de sexo rebelde, de perversão...era repleto de tudo que a igreja condenava, em outras palavras, de tudo que nos faz feliz.
Tenho ótimas recordações da aurora dos meus 18 anos pois consegui – como poucas – superar a violência disfarçada da imposição de tabus e mitos sexuais, bem como da castração de uma virgindade obrigatória. Me deliciei com as loucuras sexuais mais diversas e rebeldes que construiram grande parte de minha personalidade.
Desse padre não tenho nem mais o telefone, só as lembranças – poucas e apenas sexuais – ele continuou no sacerdócio e eu enveredei por avenidas mais mundanas – das orgias nas cálidas e poéticas noites sertanejas.
A propósito hoje como uma legítima balzaquiana solteira fui para a boemia e encontrei o padre que me negou o perdão de Deus, patenteando-o. Ele está do mesmo jeito, com sua sexualidade sempre tocada por um belo e jovem rapaz. O que comprova que na noite todos os gatos são pardos e porque não dizer sexuais.    

2 comentários:

  1. Menina, tenho a leve impressão de que sei partes dessa história e conheço alguns personagens.

    ResponderExcluir
  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....é mesmo menina????acredito que sim...são retalhos de lembranças..ficções e histórias de outros

    ResponderExcluir