quarta-feira, 27 de abril de 2011

Quem tem medo de ser Geni?

Nas últimas semanas venho ressuscitando medos, ressentimentos e indagações em relação à construção da sexualidade e nossa forma de amar, gozar e ser feliz. Por que tudo que causa prazer nos dimensiona num orbe de punição?
Em primeiro lugar o assassinato – brutal e covarde - de uma jovem de 16 anos pelo simples fato de ser lésbica me deixou abismada, entristecida e desacreditada na possibilidade de construção de “um novo céu e uma nova terra”. Para, além disso, tive o desagrado de escutar o relato de uma jovem universitária que chorou horas a fio por ter visto dois homens se beijando em um encontro de estudantes. E, como se não bastasse, tenho percebido que em pleno século XXI a maioria das mulheres – inclusive eu – se sentem diminuídas, desprestigiadas e recriminadas pelo fato, fisiológico, diga-se de passagem, de querer transar sem ter uma relação estável. Parece que escuto quando caminho nas ruas da cidadela que vivo Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um. Maldita Geni.
Afinal, o que significa ser lésbica? Que horror, asco ou sacrilégio pode haver em dois homens se beijando? Por que não se pode expressar os desejos e querer sentir prazer? Como não ambicionar ser proprietário de quem lhe desperta desejo, cobiça e luxúria?  Como não querer ser a Geni, se ela é muito mais excitante, misteriosa e lasciva? Não sei. Mas acredito que tenho algumas pistas.
Em primeiro lugar nossa sexualidade é formatada a partir da construção de negativas, proibições e tabus. Homem como homem não pode. Mulher com mulher dá jacaré. Menina vá vestir uma calcinha! Transar antes do casamento não pode, e, se pode tem que ser escondido. Masturbação enche a mão de pêlo. Mulher não pode transar no primeiro encontro já diz as manchetes das revistas femininas. Sexo anal é coisa de mulher da vida. Maldita Geni!
Assim, elabora-se social, política e historicamente um jeito de degustar o prazer, um modelo aprovado socialmente que parte da afirmativa heterossexual como forma correta de se relacionar sexualmente, considerando outras maneiras de expressar o desejo como anormalidade, desvio de conduta, perversão, doença ou até pecado. Assim, a busca pelo prazer é orientada por regras sociais que determinam o que é permitido, proibido, quando é permitido e proibido.
Para as mulheres soma-se, ainda, a obrigatoriedade de ser mãe, casta e casada. Uma “mulher de 40” solteira ou lésbica é uma verdadeira figura de mulher pela metade, que não deu certo, ficou para titia, ficou no caritó.
Acrescenta-se a isso a concentração da sexualidade na figura do pênis e no protagonismo da penetração; e, o papel de coadjuvante, complementar e preliminar dado ao sexo oral, anal e a masturbação. Uma amiga me disse certa vez que a grande maioria dos homens enxerga as mulheres como uma via expressa com três saídas: Peito leste e Oeste, Túnel do meio e Vagina central.  Eu gargalhei no momento, mas depois parei para refletir sobre as milhares de mulheres que tem castrado o direito de usufruir inteiramente de sua sexualidade, que nunca tiveram a felicidade de ter um orgasmo, ou ainda, que são obrigadas a dispor de seu corpo para o prazer de outrem, mesmo que este seja seu marido. O que faz muitas mulheres se sentirem iguais a Geni que “dominou seu asco, [...] se entregou a tal amante como quem dá-se ao carrasco”.
 Tudo isso faz homens e mulheres, sejam heterossexuais, homossexuais, bissexuais, transsexuais, travestis, transgêneros, pansexuais, ou nenhuma das alternativas anteriores, castrarem suas vivências sexuais, genitalizando-as, e, perdendo de vista todas as possibilidades de zonas erógenas contidas num corpo. Ou mais de um quem sabe?
O fato é que podemos vivenciar nossa sexualidade livremente, do mangue ao cais do porto, tal qual Sodoma e Gomorra, lambendo, sugando, desejando, beijando, abocanhando, comendo, suspirando, penetrando ou sendo penetrado. Inventando formas de extrapolar o prazer, que sempre coincidirão com a ruptura ou negação dos padrões socialmente erigidos.
Como afirma Nahra “Só uma sociedade cujo modelo de valoração é extremamente deturpado pode condenar o prazer que não prejudica ninguém. Ninguém deve se sentir culpado por amar, gozar e ser feliz”.
A grande questão posta na atualidade é que a cidade além de jogar pedra e bosta na Geni, arremessa lâmpadas, socos, balas, sorrisos amarelos de incompreensão, e, caras viradas. Vai com ele Geni????

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os meus 18 anos

Estive refletindo acerca das minhas divagações filosóficas e o pessimismo a que elas se articulam. Então resolvi socializar um texto um pouco mais leve, e, não menos filosófico, que mistura verdades e ficção, algumas minhas, outras de amigos ou das minhas lembranças inexistentes.
Qualquer coincidência - por favor desconsiderem. Este texto é de FICÇÂO.


Os anos vão se passando e revelando sentimentos confusos e conflitantes. Hoje por exemplo sinto saudade dos meus 18 anos, mas quem nunca parou para relembrar a docura desta idade? A rebeldia intrínseca e extrinsíca dos 18 anos?
Eu, por exemplo, aos 18 anos era magricela, muito beata e as vezes emílica. Conjugava em mim o avesso e o direito. Confesso que me apegava religiosamente a algumas coisas que o “santo” padre falava, na realidade de santidade ele não tinha nada, apregoava castidade, contudo, mantinha um romance com um coroinha da igreja. Tem coisas que só compreendemos perto dos 30.
Ademais, aprendi que numa pequena comunidade conjugar o verbo “trepar” pode trazer problemáticas para reputação que nem o melhor marketeiro do mundo conseguiria reverter. De certo, engrosso as fileiras das mulheres reprimidas sexualmente pela igreja, pela comunidade e principalmente pela família.
Recordo-me que aos 12 anos por ocasião de minha primeira eucaristia fui confessar-me ao “santo” padre que me indagou implacavelmente. Ou seria interrogou?
- Você fez alguma coisa de errado?
Eu, inocentemente, respondi que retrucava minha mãe. Ele solenemente me perguntou de forma mais aberta:
- você já fez inxirimento?
Eu repondi que não, mas a partir daquele exato momento descobri que sexo para muita gente era coisa errada e feia. Simbologia que ficou embricada em mim, por muito tempo, mesmo com todas as leituras críticas que fazia.
Comecei a querer mais do que beijinho na boca e sarros tediosos e santos na sacristia da igreja, concomitante ao momento da descida do espírito santo em mim – por intermédio da unção do bispo. Novamente fui confessar-me. Desta vez com outro padre, um senhor de mais ou menos 50 anos que – de acordo com as más línguas – transava com as coroinhas, tinha um affair com a secretaria da paróquia e fazia orgias homericas em sua casa de praia. Logicamente, são fatos que só tive conhecimento depois de balzaquiana e ateia.
Este senhor era imponente e eu permaneci calada sem saber o que dizer, quando fui baleada frontalmente:
- você fez algo de errado que queira me contar?
E eu, já com o germém do marxismo e um pouco de tensão pré-mestrual, respondi:
- o que seria errado para o senhor?
Ele, afrontando minha petulância me falou:
- você já fez algo de errado com os meninos? Ou quem sabe sozinha? Já pegou nas partes de algum menino? Eu falei prontamente: não, mas tenho muita vontade de fazer.
O padre me deu um sermão de uma hora e mandou-me rezar um rosário, o que despertou a curiosidade de todos os outros jovens. Penso eu que eles imaginavam: o que ela fez para receber uma penitência tão longa?
Dois anos depois estava lendo de Mariazinha a Maria um livro sobre sexo de Marta Suplicy, que certamente hoje não tem para mim serventia teórica, cedido por uma noviça baiana que se apaixonou pelo garoto que eu era encantada.
Traumas a parte, os beijinhos e sarros continuavam cada vez menos castos e puros, até que conheci alguém muito especial. Um momento para uma breve nota de rodapé: quando temos dezoito anos todos os homens são especiais, perto dos 30 se eles não forem carecas, sacanas e barrigudos e tiverem vários filhos e amantes já é uma vantagem. Enfim...e voltando ao assunto ele era muito especial, uma mistura autêntica de poesia e carnaval e nós nos apaixonamos. Começamos a namorar e depois de algum tempo resolvemos conjugar e materializar o verbo “trepar”. Fomos a casa dele e estavam presentes todas as ansiedades do coito inicial, mas como já estávamos craques na arte de sarrar, muito mais do que o Robinho na de pedalar e do que o Lula na de se candidatar, trepamos sem muitas delongas.
Aquele gozo clandestino dos 18 anos que hoje não tem a mesma subversividade. Meus olhos marejam quando lembro da inoscência daquele momento e também do medo de ser desmascarada, até porque minha mãe dizia que mulher descabaçada se conhecia pelo andar e os meninos do colégio diziam que era pela sombra. Eu sem conhecimento de causa fingi uma doença por uns dias, e o pior que nessa história acabei doente de verdade e por duas semanas. O fato é que quando voltei para a escola ele tinha pedido transferência e eu quase morri de desgosto como o Castro Alves, o mais engraçado é que algum tempo depois nos reencontramos e a paixão reascendeu, o que comprova minha histórica falta de sorte com os exemplares masculinos.
Depois dessa decepção mais sexual do que amorosa resolvi me confessar novamente com o padre, já que ele era obrigado a ouvir e a manter o assunto em sigilo confessional, e todo mundo sabe que quando agente conta algo a um amigo e diz que é segredo em três dias a escola toda já está sabendo. Fui lá na igreja e o padre me recebeu com a cara o que é que você fez de errado? Contei tudo e ele começou a falar de castidade, Maria, pecado e conversão, e me colocando na parede perguntou se eu me arrependia. Eu imediatamente disse que não e ele, como legítima autoridade eclesial, não pôde fazer o canal direto com Deus para me perdoar. Contudo eu voltei orgulhosa para casa. O gosto de rebeldia sempre me excitou.
O fato é que meus 18 anos ainda me preparavam uma surpresa encantadoramente carnal. Três dias após a confissão e a negação de Deus em me perdoar, comunicada pelo padre, eu fui a um encontro de líderes da juventude, nessa época eu achava isso importante, como hoje não tenho mais pretensão de entrar no céu, isso é uma bobagem. Nesse encontro conheci um jovem seminarista e me encantei. O bacana da juventude é que você pode sofrer por alguém três semanas mas esquecê-lo em dois segundos.
Aquele cara era o máximo, e se eu pudesse teria transado com ele ali mesmo, mas nesse dia nem telefone trocamos. Que bom que a igreja é um covil de gente pecadora e fulera, uma semana depois meu telefone toca e em um mês já estávamos no momento de apaixonite aguda, impulsionada pela minha beatice. Como eu era líder dos jovens tinha que viajar para os encontros e ele também, num certo dia de pecado, numa longíqua cidade do sertão e aos pés de São Francisco ou melhor em sua sacristia, eu e o seminarista transamos até cansar. Depois ele ficou meio arrependido e com medo de ser castigado, eu já tinha sido impedida de receber o perdão divino pelo padre e isso, em certa medida, me alforriava.
Alias aquilo tudo me excitava visceralmente, o que comprova minha capacidade de me encantar pela desordem. Hoje percebo que nossas inclinações sexuais não podem causar medo.
Passei um longo período transando com o seminarista e algum tempo depois com o pervertido recém padre, e era delicioso, pois tinha um clima de romance proibido, de sexo rebelde, de perversão...era repleto de tudo que a igreja condenava, em outras palavras, de tudo que nos faz feliz.
Tenho ótimas recordações da aurora dos meus 18 anos pois consegui – como poucas – superar a violência disfarçada da imposição de tabus e mitos sexuais, bem como da castração de uma virgindade obrigatória. Me deliciei com as loucuras sexuais mais diversas e rebeldes que construiram grande parte de minha personalidade.
Desse padre não tenho nem mais o telefone, só as lembranças – poucas e apenas sexuais – ele continuou no sacerdócio e eu enveredei por avenidas mais mundanas – das orgias nas cálidas e poéticas noites sertanejas.
A propósito hoje como uma legítima balzaquiana solteira fui para a boemia e encontrei o padre que me negou o perdão de Deus, patenteando-o. Ele está do mesmo jeito, com sua sexualidade sempre tocada por um belo e jovem rapaz. O que comprova que na noite todos os gatos são pardos e porque não dizer sexuais.    

Bar de Ilusões

Hoje tive uma percepção terrível. Observei-me numa mesa de um bar lotado e comecei a fazer indagações filosóficas sobre a juventude, a solidão e a felicidade. Senti um profundo vazio naquele lugar cheio de bebida, música e risos. Toda aquela “felicidade” levou-me a refletir sobre minha infelicidade, enquanto o cheiro de cigarro incensava a tudo e a todos.
Será que a juventude está me abandonando? Todos são tão felizes o quanto aparentam nesse bar? Ou tão descolados e poderosos? Afinal, que juventude é essa? O que pensa essa galera? Porque não consigo ver verdade nessa felicidade do bar da Cidade Universitária, e, muito menos, liberdade nessa mistura de drogas, sexo e marxismo acadêmico? Será que estou “encaretando”?
            Todos querendo ser os mais belos, libertários e sábios, disputando entre si pelas coisas mais toscas, conversando sobre as mais absolutas e profundas idiotices, e, gargalhando das piadas mais bobas e dos dilemas mais rasos. O que é melhor: casar ou comprar uma bicicleta?. E o Chico cantando ao fundo inutilmente. Ninguém o escuta.
            CANSEI! Já são altas horas. Todas as luzes da rua começam a ser apagadas e a roda dos assuntos não muda. Marxismo de bar, orgias pós- carnavalescas, MST, mais piadas bobas e gargalhadas mais sonoras e vazias... Traz mais uma cerveja! A solidão de uma “galera acompanhada” torna-se cada vez mais nítida. O samba tocando, os aviões passando e a minha sobriedade me crucificando. E nessa passada mais uma noite se esvai, e, morte se aproxima. 
            Talvez minha alma triturada de experiências tristes não consiga mais divagar por essas ruas mundanas. Ou tenha perdido a ilusão de encontrar alguém com mais profundidade do que um copo cheio de cerveja. Talvez eu precise me embriagar para ficar tão descolada, jovem, feliz, etc, etc, etc, como a galera do bar. Talvez eu deva fazer tal qual o cineasta Oscar Wille e beber para tornar as outras pessoas mais interessantes, tendo em vista que o álcool reduz consideravelmente nossa capacidade de ter censura.         
             Não.
             A única coisa que senti foi uma vontade inenarrável de chorar.
            Chorar e andar pelas ruelas nefastas da Veneza brasileira pode ser uma terapia bem interessante. Tantos rostos anônimos. Tanta cidade a ser explorada e gente a ser conhecida, e, eu com esse gosto de solidão levemente temperado por um cigarro que eu não cheguei a fumar.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Eu sou Gay?

Sejamos Gays. Juntos. abril 12, 2011 

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.   Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.   Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.   E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.   Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.   Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?   Quero então compartilhar essa ideia com todos.   Sejamos gays.   Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY   Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:   1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY   2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com   3) E só   Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.   A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.   Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.   As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.   Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.   — Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa


Forum de Mulheres de Pernambuco
Eu sou Gay

terça-feira, 5 de abril de 2011

Para sempre Cazuza...

Hoje voltei a fumar...sim...
Hoje voltei a fumar... Na verdade o cigarro é a coisa mais saudável que podia me acontecer nesse momento, pois sinto que viver está acabando com minha saúde, felicidade e poesia. Se é que algum dia eu as possui ou fui possuída por elas.
Toda essa melancolia se abateu sobre mim quando abri minha agenda, e me defrontei com a data importante – o aniversário de Cazuza. Por que essa data seria tão relevante para mim? Simples como um cartão postal, o poeta exagerado sintetiza toda loucura que um dia desejo extravasar.
Comecei a me envolver com seu jeito mutante de ser quando o escutei pela primeira vez...sua voz parecia um convite a luxúria e a insanidade. Apaixonei-me. Não como adolescente. De modo algum, minha paixão por Cazuza foi sexual e animalesca. Depois de algum tempo descobri que ele não gostava de seu nome e isso nos conectou fortemente. Afinal, eu rejeitava meu nome porque achava que ele não me descrevia. Ele era calmaria e eu vendaval. Um verdadeiro ciclope, uma tempestade, uma ressaca? Não um tsunami. 
De fato, sempre houve um laço visceral entre minhas divagações e o Cazuza, entre sua rebeldia perturbadora e o meu desejo – incontrolável – pela desordem.  Sempre me excitei pelo lixo noturno, a cara deslavada do cinismo e da ironia, e, principalmente, por minha crescente capacidade de me entusiasmar com a repulsa que posso causar as mentes conservadoras. Sem esforço algum – sempre - gozei com a insolência, a petulância, o atrevimento. Como dizia a homilia disciplinadora: sempre pequei pelo gozo ao enxirimento. Essas coisas que revelam nossos sentimentos mais íntimos e às vezes até pérfidos.
Neste emaranhado de coisas que querer sair de nossa boca ou entrar ... em nossas cabeças, o Cazuza sempre me conectou a poesia mais sórdida e extravagante que há no mundo.  Se vivesse seria quase um sexagenário, e eu, quase uma balzaquiana...
 Mas o que me faz sentir tão entristecida? Qual a relação existente entre aquela que não ouso despertar e o Cazuza?
Há uma extrema vontade de gozar a vida, de fumar a última piuba de cigarro encontrada em qualquer cinzeiro abandonado numa mesa desconhecida, de amanhecer numa esquina além-mundo proclamando declarações de amor tão verdadeiras quanto uma alucinação branca...ou seria multicolorida?
Não sei.
Só sei que às vezes me deparo como o Cazuza na porta de alguém pedindo colo, consolo, sexo, cigarro ou simplesmente fogo para continuar tecendo ilusões amargas e sorrisos dignos de Oscar. E, que quando abraço o mundo com as pernas, ou lambo o chão da noite, ou me desespero com a caretice patética de um sexo comportado com meu príncipe encantado, não sei se sou eu mesma ou se é apenas a mulher que projetei em minhas fantasias.
Como o Cazuza também disponho em meu arsenal bélico de uma metralhadora cheia de mágoas, mas o alvo primordial de minha balas – de festim - é a mulher balzaquiana que estou me transformando...será que Ele encaretaria?
Apenas sei que - assim como o poeta - também chegará o dia que cantarei blues e sentarei em frente à praia de Boa Viagem - com velhos novos amigos ou completamente sozinha - relembrando como fui profunda, fugaz, evasiva, hostil, aleive, verdadeira...e estarei pronta para seguir na vida tecendo grandes relações que durem eternamente uma noite, e, a disposição para fumar o último cigarro e beber um ultimo gole de cerveja... Escutando um tango, beijando uma dama de vermelho e rebelando-se cada vez mais.
 

Salve, Salve Cazuza...