quinta-feira, 3 de março de 2011

“A vida em chamas” - retalhos de reflexão sobre a folia carnavalesca

Quando chega fevereiro "um espectro ronda o Brasil" e tudo pára. É impressionante.
Todos nós somos bombardeados pelo espírito carnavalesco. Mesmo quem não gosta de folia é enredado pela embriaguez do período, seja pelas vitrines das lojas abarrotadas de fantasias, ou, no apelo midiático da festa. Eu mesma, como diria o Chico, passo o ano todo “me preparando para quando o carnaval chegar”.
Mas o que faz esse período ser tão especial e afetar a vida de todos?
Simplesmente são quatro dias mágicos, prófugos e inebriantes... É o momento do ano em que somos transportados a um orbe fantasmagórico, e, nele perdemos de vista todas as mazelas e infelicidades do mundo. Ganhamos asas, garras e poderes sobrenaturais. 
Nesse período as preocupações, as contas e as tristezas são colocadas em segundo plano. Esquecemos as mulheres violentadas e mortas pelos seus companheiros, as lutas pela terra, o nefário aumento do salário mínimo, a cara de pau dos políticos de Brasília que aumentam os seus salários anos após ano, as filas para receber atendimento médico no SUS, o encarecimento da cesta básica, o desemprego estrutural, enfim, superamos de forma rápida, eficaz e –absolutamente - efêmera a ideia de que a classe trabalhadora está, cada dia mais, se deteriorando.
Não se pode ignorar que o carnaval é uma reedição, endiabrada, do pão e circo romano, para alienar e manobrar a classe trabalhadora, mas precisa-se explicitar que essa folia empreendida pela racionalidade burguesa é embriagante e profundamente orgasmática.
O carnaval nos dá quatros dias para materializar absolutamente tudo que não é feito no cotidiano. Isso mesmo! Você pode beber até cair e vestir-se de mulher, dançar freneticamente, beijar enlouquecidamente e várias pessoas no mesmo dia, ir atrás do trio elétrico e dançar o creu na velocidade cinco mesmo sendo feminista, cantarolar as músicas mais frívolas e passageiras, ficar super chapado, fazer amizades eternas e encontrar um grande amor que dure exatamente um carnaval...e repetir tudo isso de novo pois é o seu único compromisso por quatro dias seguidos. Trocando em miúdos, é uma licença social para você deixar de ser você. Ou será que você é realmente você no carnaval? É extraordinário...
Nesse sentido, a folia profana pode ser compreendida como uma representação, uma alegoria, uma pausa na realidade, um furto à razão. Nada mais do que o desejo de ser outra pessoa apenas por quatro dias, e, de “romper provisoriamente” com o peso do cotidiano, e, de suas obrigatoriedades que baleiam frontalmente o gozo, apagam o fogo, entediam a vida. E, para, além disso, limitam, ou pelo menos, enfeiam o nosso imaginário.
Estou convencida que a folia carnavalesca é uma pausa necessária. Uma breve suspensão da razão. Depois dela tudo volta ao que nossa vida acinzentada convencionou chamar de normal. Retorna-se ao trabalho, estudo, formalidade, preocupações...é um triste regresso a "calmaria perversa" da exploração alienada do capital, e, a conservação de todas as relações conservadoras que circundam a lógica burguesa.
Por essa razão a quarta feira de cinzas é tão triste. Ela é um choque de realidade.  Acorde camarada! A fantasia terminou.
Quando volto do carnaval eu tenho uma sensação de semi morte, chego a não conseguir exteriorizar esse sentimento em palavras... Simplesmente inenarrável. É a certeza que toda alegria que sentimos nesses folgosos dias se esvaiu entre os dedos... É um sentimento de ressaca coletiva...porque o carnaval é o gozo da embriaguez. Em resumidas contas: é a cara insossa e debochada da derrota.

P.s: por isso que se bebe e se faz tanto sexo no carnaval. Fato incontestável. Como diria um amigo de Recife: Adorooooooooooooo desordem!!!

2 comentários:

  1. Poh coments legal, mas gostaria dessa farrinha do carnaval com um pouco de ordem, sem violencia, sem crimes, sem embriagues, que todo mundo pudesse sair ileso e feliz de toda festa, que o carnaval não fosse algo paliativo dos problemas, mas sim solucionador, porque faz com que as pessoas tb se tornem mais produtivas e criativas, é de certa maneira uma festa muito válida, eu por exemplo, aproveito o carnaval, para abrir a cabeça pra certos conceitos de vida e pra fortalecer todo o resto, me firmar, além de é claro, me divertir, me motivar pra mais um ano de muitas lutas que se inicia! e o espero ansiosamente todos os anos prlo renovo e fortaleza dessa cultura tão irradiante que é o frevo em nosso estado, que deveria ser valorizado e tocado nas rádios todo o ano!!!

    ResponderExcluir
  2. Gata, você me fez refletir que essa festa também é um reinado do Capitalismo, vendem-se fantasias, camorotes, drogas, ilusões...

    ResponderExcluir