segunda-feira, 14 de março de 2011

“Certezas, angústias e desabafos: uma breve reflexão sobre a docência no Serviço Social”

Tenho plena convicção que socializei com amigos o fato de que não iria escrever nada sobre o Serviço Social nesse espaço de reflexão afetiva. Mas não resisti...
Hoje algo de estranho me aconteceu e tenho que socializar em texto. Há muito tempo venho refletindo acerca da universidade, do processo de produção do conhecimento e da profissão de educador (a).
Sempre desejei ensinar e contribuir no processo educativo dos sujeitos. Ensinar é místico, solidário, transformador e revolucionário. Lembro que ao entrar na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) esse desejo foi aprofundado por meio da intervenção qualificada de grande parte do corpo docente. Sujeitos políticos profundamente revolucionários, amorosos e humildes que militavam junto aos discentes nas lutas sociais mais diversas e nos espaços da cotidianidade – inclusive nos botecos mossoroenses e luais do movimento estudantil, sem rupturas nos níveis de responsabilidade de cada um (a).
Aqui vou agradecer – publicamente - as professoras Mirla Cisne, Telma Gurgel, Fernanda Marques de Queiroz, Rivânia Moura, Aione Maria, Iana Vasconcelos, Joana Lacerda, Glebson e Gláucia Russo por terem me ensinado que o processo educativo é uma construção pedagógica que extrapola a ciência e a técnica, e, requer virtudes como amorosidade, rebeldia, irreverência, respeito, alegria, disponibilidade à mudança, persistência na luta, tolerância, reciprocidade e, principalmente, humildade e diálogo.
Compreendo perfeitamente os processos de precarização e a ofensiva constante que os/as professores/as universitários/as vêm sofrendo, materializados pela sobrecarga de trabalho, condições precárias de ensino/pesquisa/extensão, a macdonização do ensino superior corporificada na pressão por produção, a expansão do ensino superior privado e a distância, a questão das perdas salariais, a constante corrosão dos direitos sociais e o refluxo das lutas sociais.
No entanto, vale lembrar, que o Serviço Social brasileiro vem passando nas últimas décadas por um processo de renovação, e se constituído enquanto espaço de rebeldia, crítica e luta por uma intervenção profissional que rompa com o conservadorismo e comprometa-se com a luta da classe trabalhadora, e, com a construção de uma nova forma de sociabilidade. Ao meu ver, o projeto ético-político do Serviço Social aponta a necessidade de um profissional comprometido com a liberdade e a emancipação humana, e sendo assim, capaz de romper com o arbítrio e o autoritarismo e estabelecer o diálogo.
Relembrando Iamamoto (2001, p.141) “a consolidação do projeto ético- político profissional que vem sendo construído requer remar contracorrente, andar no contravento, alinhando forças que impulsionem mudanças na rota dos ventos e das marés na vida em sociedade”.
Ainda, em relação ao projeto ético-político, Netto (1999) aponta que os projetos profissionais são a auto-imagem de uma profissão ao eleger valores que a legitimam socialmente, delimitar os objetivos e funções, apontar balizas para o comportamento dos profissionais e sua relação com os/as usuários/as de seus serviços.
Nesse sentido, a prática educativa no Serviço Social deve ser pautada na problematização da sociabilidade capitalista e seus (des) valores. E sendo assim, constituir-se como um processo humanizador que proporcione uma práxis transformadora para libertar os homens e as mulheres da situação de subordinação que o modo de produção capitalista lhes impõe.
            Por tudo isso, nosso processo educativo/pedagógico deve ter como pressuposto a crítica ao que Paulo Freire - tão bem - conceitua de ‘ensino bancário’.  Nesta perspectiva o conhecimento é uma transferência dos que se julgam detentores do saber aos que julgam nada saber, dos que têm a fala competente e dos que desprovidos dos oráculos do pensamento sofisticado só resta à repetição das teorias já elaboradas. Convém mencionar que a ‘educação bancária’ tem como fundamento a absolutização da ignorância, sendo, pois, o aluno objeto da intervenção do professor, considerado desta forma como um mero recipiente vazio onde se depositarão conteúdos assim como se depositam valores em um cofre.
É uma espécie de domesticação do educando que desumaniza o ser humano a partir da construção de um tipo de conhecimento repetitivo, pragmático, decorativo, que transfere conteúdos de forma taylorista/fordista com uso de cronometro, com rigidez, padronização, centralização e culpabilizando o/a educando/a pelo insucesso acadêmico. Nas palavras de Paulo Freire “(...) a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será”.
Essa forma de educar mistifica a verdade, nega a construção do diálogo, desconhece a processualidade e historicidade das relações sociais, e dessa maneira acaba por produzir e reproduzir práticas imobilistas, repetitivas, fixistas, hierarquizadas e dominadoras que são perfeitamente compatíveis com a manutenção do status quo (criticado tanto pelas vertentes de esquerda quanto pelas mais conservadoras do Serviço Social).
Por tudo isso, a concepção de ensino compatível com o Serviço Social crítico e comprometido com a luta da classe trabalhadora é a problematizadora, empenhada com a desmistificação da realidade e com a libertação, comprometida com o dialógo e capaz de contribuir para que os/as indivíduos se transformem em sujeitos históricos. Não é transferência de conhecimento, mas constituir as condições para que o conhecimento seja produzido e construído, se configurando como uma responsabilidade política. 
Por ter compromisso com a luta da classe trabalhadora, e, com a prática educativa no Serviço Social, e por acreditar na máxima freiriana que não é no silêncio que os homens e mulheres se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão, que aponto essas reflexões sobre a docência.
[...] os homens [e mulheres] se educam entre si, mediatizados pelo mundo. (Paulo Freire)

Um comentário:

  1. Em todas as áreas minha amiga a pratica educativa é desprezada, menosprezada principalmente pelos políticos..

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