sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Tempos de vida fast food


Começo essa pequena pausa nas minhas leituras de trabalho fazendo uma constatação terrível: em nossa sociedade homens e mulheres vivem – cada dia mais – o calvário de relações afetivas efêmeras, superficiais e fetichizadas. Já profetizava o bom e velho Marx: tudo que é sólido se desmancha no ar.
Desenvolve-se diante de nossos olhos - passivos e conformados - uma cultura do imediato, da descartabilidade, da coisificação das relações e da banalização da vida. Uma verdadeira cultura da barbárie e da paralisia social. Nos transformamos em seres humanos descartáveis e macdonizados. Nossa vida passa a ser tão rápida e superficial quanto um lanche num fast food.
Em resumidas contas o consumo tornou-se a centralidade de nossas vidas, e, nesse sentido, tudo se transforma em mercadoria - roupas, lazer, comida, educação, carros, celulares, sapatos, beleza, saúde, juventude, sentimentos, sensações, valores... Prazer, suor, fé e saliva. Tudo é passível de  compra, troca, venda e fabricação.
Não tem um (a) amigo (a)? Simples: contrate um personal acompanhante. Quer sexo intenso, fulgás e descomprometido? Fácil. Nem precisa mais pagar (alguns ainda recorrem a esse artifício), sai para balada e pega um (a) cara desses (as) de fabricação em série, no outro dia é capaz dele (a) nem lembrar teu nome.
Às vezes fico parada em casa pensando: meu reino por uma história interessante, um sentimento de verdade, um encontro ocasional sem obrigatoriedade de motel, uma balada sem a sensação infernal de estar sozinha no meio de uma mutidão. E depois fico pasma pelas confissões de tantas (os) amigas (os) que se defrontam com esse mesmo melodrama contemporâneo.
Certamente, a questão é muito mais complexa do que estou formulando aqui, tem haver com a reconfiguração e - dizem alguns – “modernização” das relações sociais em tempos de “pós-modernidade”. Não é demais afirmar que a rapidez do grande cassino em que nossa economia globalizada se transformou invadiu todas as esferas de nossa vida, e, nessa ânsia de consumo e imediaticidade, também nos mercantilizamos.
O tempo se esvai em nossas mãos e nada acontece. Temos que consumir o tempo, fazer tudo no mesmo momento, vivenciar a loucura e lucidez na mesma noite. Todas as sensações, bocas, corpos, assuntos, pessoas devem ser obsessivamente consumidos. Inclusive nós mesmos (as).
Não estou falando para gente voltar ao tempo e constituir relações conservadoras, unilaterais, machistas, eternas, etc, etc, etc. Não estou propondo namorar, noivar, casar, ter filhos, casa de praia, cachorro, periquito...bôdas de ouro, com o mesmo etapismo de nossos pais e avós. NÃO! Definitivamente não é isso. Indago-me, apenas, por que nossas relações não passam de beijos anônimos, baladas abarrotadas de pessoas superdescoladas e hipertransadas, e dessa sensação de solidão acompanhada que nos persegue nas madrugadas de segunda.
Refiro-me a essa pseudoliberdade e independência aspeada cada vez mais internalizadas por homens e mulheres de todas as idades – dos garotos com cabelo playmobil à tiazinha da esquina. Eu, você, a atriz global. Todos querendo viver tudo que essa sociedade “livre” pode oferecer. Se posso beijar todas as bocas e transar com todos os (as) caras sarados/as, por que esperar? Para que refletir? Por que sair da balada sozinho/a? o que agente não consegue entender é que tanta liberdade nos consome.
Temos que construir urgentemente uma alternativa a esse mundo caótico...

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