quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quem?

Quem é essa mulher que não conheço?
Essa imagem turvada no espelho?
Triste menina bonita?
Quem é essa que nunca vi?
A menina mulher perdeu-se nessa velha jovem.
A sapeca emílica furtou-se de mim.
Onde está a menina que gargalhava tomando banho de chuva?
Por onde anda aquela mulher?
Àquela que jogava sinuca e tomava cerveja no botequim da esquina?
Onde está essa mulher?
A que dançava freneticamente nas noites cálidas?
Por onde anda minha menina?
Perdeu-se entre os arranha-céus e os livros?
Quem é essa que nunca vi?
Por onde anda a menina que dança?
A que cantava no centro comercial da cidade?
A do samba, da praia, da rua, da noite?
Nua, lua, menina, mulher, arteira.
Onde procurar essa mulher?
Como reconstituí-la?

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Disritmia

Cheguei em casa de mais uma noite de boêmia e me olhei no espelho com saudades da felicidade que um dia em minha alma habitou. No fundo o Cartola canta insistentemente: “a sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida. No fim da tempestade o sol nascerá...”. Rezei. Chorei desesperadamente até ficar com dó de mim como diria Chico, até dormir, e, caí no sono com um gosto de morte na boca.
Será que o sol nascerá mesmo? Minhas lágrimas diárias e noturnas vão desaparecer? Meu sorriso vai voltar?
Quem sou eu sem minhas autênticas e sonoras gargalhadas? Quem sou eu sem minhas palhaçadas, mungangos e piadas? Quem sou eu sem minhas trovas? Quem é essa que remoi coisas pequenas e conversas de botequim?
É muito melancólico e até simplório perceber que se chegou aos trinta com tanta infelicidade, adversidade e infortúnios. O lugar onde estou apenas sintetiza tudo isso, entretanto isso não pode ser exposto. As ideias não podem sair de minha cabeça congestionada...ficam entaladas na garganta. Essa dor incomensurável tem que ficar dentro de mim? Justo eu, que sempre adorei cantar amor febril?
Sigo normas de conduta, regras, ditos e reditos que me dizem para ser disciplinada, vestir assim, agir assado... silenciar, falar, rir, amar... Robotizei-me. Vago com o olhar baixo, derrotada, pequena, apagada, estática, careta, sem coragem.  O medo se tornou uma palavra corrente no meu vocabulário.
Eu era tão feliz e tão destemida. Mas isso agora só vive nas minhas memórias.
Adestrei meus sonhos, minha militância, minhas paixões, a minha tão amada irreverência... Perdi o gosto pela arte de educar, perdi o gozo descomprometido, vendi meus valores, e, onde estou? Como estou? Para onde vou Marx?
Soluço em forma de verso e de reverso. Prosas de ilusão. Frases em disritmia. É isso?
Me devoram todo dia um pouquinho mais, e, não é a paixão. Passo os dias vegetando, as noites me embriagando e as madrugadas chorando e procurando a Suamy perdida.
Leio textos que não quero ler, escrevo coisas que não quero escrever, transo com gente que não me incita lascívia, escuto coisas que para mim são verdadeiras aberrações, os meus pares  me ridicularizam... Passam os dias no meu quarto escuro e quando saio dele uma nuvem nublada me persegue, amedronta e disciplina.
Não fale! Não sinta! Não pense! E agora Marx? Que fazer? Como diz o Cazuza: “estou cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar.” Ou como rima o Chico: “olhe a voz que me resta... deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa e qualquer desatenção: faça não. Pode ser a gota d’água”.
Ando pelas ruas como quem caminha para a morte. Fones no ouvido, óculos escuros e o desejo implícito de não falar com ninguém. Logo eu que sou tão tagarela? Tão oral, tão feliz... Sempre me orgulhei por ser uma pessoa feliz... O mundo caia e minha felicidade estava lá – inabalável. Agora não sei mais quem sou.
O meu único e melhor amigo é o Marx. Antigamente ele me visitava em sonhos todas as semanas e tínhamos verdadeiras conversas filosóficas... Agente debatia no bar de George – em Moskowzinha de meu coração - e na companhia do Cazuza e da Maysa, ríamos como quatro crianças e bebíamos uma Skol bem gelada. Era um sonho recorrente. Eu acordava indagando se era sonho ou se tinha sido uma visita dos três. Agora nem com eles eu sonho mais. Eu não sonho mais. Até o Marx me abandonou.
Noites perturbadas... Sono atrapalhado... Insônia... e, músicas para se matar. Socorro!!!! Escrevo para não morrer ou escrevo como quem morre? Estou visivelmente infeliz... Aliás minha melancolia fulgura em todos os lugares. É desumano.
 Por onde anda a mulher destemida que sonhava em ser professora, em mudar o mundo, em fazer uma apaixonada revolução? Cadê a jovem que furava a aula de estatística para tomar uma cerveja na frente da UERN e entusiasmada defendia o socialismo? Onde está a menina que ia todo fim de semana para Canoa Quebrada e quando chegava lá olhava abestalhada as falésias como se fosse a primeira vez? Onde se escondeu a Suamy ateia que dia 02 de fevereiro levava rosas vermelhas, perfumes e mimos para Yemanjá? Cadê o meu olhar encantado com uma pergunta ávida? E a palhaça que se diverte dando cantada brega em Elder? Cadê minha menina?
Cadê a Susuca Will? Eu não me reconheço no espelho. Eu desconheço essa mulher. Onde está meu riso, minha manha, meu canto, meu samba?
Aparece menina. Volta para esse corpo menina arteira, medonha e apimentada.
Sinto que a morte tem me rondado sorrateira. Não vejo saídas.
Mesmo assim cantarolo o batuque da ciranda: “[...] Eu já pedi a Oxalá, meu pai Ogum e Yemanjá, mamãe Oxum e todas as crianças, pra me dizer o que fazer, pra minha fé eu não perder, olhar pra frente e sempre acreditar. Oia Xangô! E lá na mata com Oxossi, no meio da natureza e no brilho do sol na cachoeira, e, na passagem do milênio eu já pedi saúde, paz, amor e muito axé. A chuva cai fico contente, um raio forte cai na minha frente para confirmar que ela está aqui: é guerreira Iansã...Iêpaê Iansã”.
Iêpaê Iansã...
 Tenho que exorcizar essa tristeza que não me pertence.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Onde está o belo do mundo?

Um comentário do meu blog me deixou meio pensativa nos últimos dias. Será que realmente eu só enxergo o feio e triste do mundo? Seria eu uma pessimista incurável? Ou uma realista mal interpretada?
O fato de me angustiar com o mundo e a sua fatídica hipocrisia não quer dizer – de forma alguma – que eu não veja a beleza e a leveza contida nas coisas. Destacar a escuridão não significa – necessariamente – que você não aprecie a luz. Gostar de praia não representa ódio a serra. Não mesmo!
Porque as coisas são vistas de maneira tão dicotômicas? Se o real é a síntese de múltiplas determinações como já disse o bom e velho Marx, então, eu posso pegar desse real o que mais me chama atenção sem que as outras partes constitutivas dele sejam negadas... Sei lá...
Na verdade, esse comentário no blog - muito bem vindo, diga-se de passagem – me fez suspender meu cotidiano assoberbado de atividades e repensar algumas coisas belas que meus olhos já tiveram o prazer de admirar e minha memória congestionada de registrar.
Quase que imediatamente veio o cheiro da minha infância... a recordação de minha bicicleta azul...minha Irma e meus primos crianças...a minha rua cheia de pirralho brincando de esconde-esconde...a sala do pré-primário na Funcern...
Tanto encantamento estava escondido em minha memória engarrafada de textos marxistas. Assombrou-me... Acho que minha alma atormentada e sem estrada pra fugir acostumou-se a denunciar o lixo do mundo... Seria eu uma marxista-feminista ranzinza? Seria eu uma obcecada pela tristeza? Só sei divagar sobre a melancolia? Não tenho respostas, voltemos ao resgate do belo perdido...
Rememorei a primeira vez que vi o mar, aquele momento detinha uma ternura e um esplendor indescritível, até hoje meu sentimento de abestalhamento e admiração ao mar não cabe em poesia e muito menos em prosa...
E o gosto do meu primeiro beijo? E do último a quinze dias atrás? “Beleza pura” como diria o Caetano...
Vixê...relembrar o belo é despertar coisas que talvez nem devam mais ser lembradas...Quanta beleza havia naquela negritude me abraçando nas noites sertanejas...quanto magnificência há na tintura vermelha das falecias de Canoa quebrada, na bucólica rua Aurora, e nos cinzentos arranhas céu paulistanos...e quanta beleza há na sopa quentinha de minha avó...no baião de dois na casa de Mainha...na risada de tia Santana...quanta poesia esta contida nas areias coloridas de Tibau, ou até no cheiro de um livro novo?
É excitante, saudosista e triste falar de beleza... Quanta beleza existe no meu Mengão jogando... Fla x Flu no maracanã... na paixão dos adolescentes...em uma Skol geladíssima no bar de Magnos na companhia de Jean Galdino?
Num poema de Drummond... num verso de Chico...na paquera...numa ligação inesperada...na densidade de Marx...na revolução do MST...na rebeldia do movimento feminista...no orgasmo...num filme francês...em Recife... numa despedida... numa conversa de botequim...numa gargalhada...num samba...nos olhos amendoados de meu amado... a beleza está em tudo e em todos...
E, é exatamente por ver o belo da vida que tenho que apontar a possibilidade de seu esgotamento...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

“No rehab”



Eu, Suamy Soares, estou me sentindo meio estranha hoje. Realmente “a historia só se repete ou em farsa ou em tragedia”…
A morte prematura e já anunciada de minha diva Amy Winehouse me fez repensar a vida, a morte e a loucura. Sim. Morre a mais louca de todos os tempos. E a loucura é um suspiro de vida na chatice do mundo...
Quanta vida ela viveu? E eu, quanta vida já vivi? 27 anos e uma desvairada vida, e eu 28 e uma vida medíocre...com profunda ausência de devaneio e uma fatídica racionalidade docente. Eu preciso de uma reabilitação ao contrário...preciso ser possuída pela devassidão de Amy...
Quanta paixão e rejeição estavam contidas em tua voz rouca?
E se a loucura extrapola a arte e a genialidade?  E se as angústias, o tédio e a melancolia não cabem dentro de você? E se a bebida torna as pessoas mais interessantes? E se for melhor viver anestesiado da insuportabilidade da vida? E se a loucura corrói a vida? E se a lascívia vence a racionalidade careta? E quanta lascívia ela tinha...e eu?
Quem nunca quis ser a Amy? Pelo menos um dia? Quem nunca quis um dia de loucura? Uma vida de loucura? Um carnaval eterno? Uma cotidiana embriaguez? Atire a primeira pedra quem nunca definhou por uma paixão ou até pela falta de paixão...quem nunca caiu bêbado? Quem nunca quis enterrar seu próprio coração? Eu mesma queria escurecer meu coração e trancafiá-lo a sete palmos de terra...e continuar livre, leve e solta...E viva.
Quem não desejou um pouco mais de loucura, tumulto e rebeldia? Sair por aí, bêbada, de pés descalços e maquiagem borrada... Isso sempre me excitou na mais louca ícone pop de todos os tempos... Afinal: eu gosto é de desordem...eu gozo com a polêmica...Eu quero é liberdade...aliás o que eu quero ainda não tem nome...
De certa forma – assim como Amy - também me recusei a reabilitação... somos duas almas perturbadas, amedrontadas...atormentadas...”Eu não vou!!!”
Quem precisa de reabilitação? Seria ela ou esse mundo caótico... Não sei...o fato é que ela se foi...
O fato é que todos os pais e mães querem nos colocar numa clínica de reabilitação... Os bêbados, os maconheiros, os gays, os artistas, os loucos...as anomalias...todos nós estamos na mira da reabilitação...”No Rehab”...”eu não vou para a clínica de reabilitação”...No!!!
Daí aparece milhares de pessoas nas redes sociais fazendo piada com a morte de Amy...e tentando a partir de sua morte catequizar todos nós...reabilitar todos nós...”vejam como ela era e não seja assim”...
A brincadeira com a morte prematura de alguém denota o esgotamento do sistema metabólico do capital....não tem graça alguma...
Heloísa você tem toda a razão. Eu realmente sou Su’Amy Whinehouse... Apenas não ouso despertar essa minha faceta de insanidade...Tenho medo da clínica de reabilitação...tenho medo de meus pais...
Como diria Mario Quintana: “há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer”
O mundo fica menos desvairado... mais cinzento e careta. É isso mesmo Amy: “Se expor é fazer história”. Fique em paz... coisa que nesse mundo conservador, retrógrado e ridículo você nunca conseguiu...nem eu...nem você que esta lendo esse desabafo...
O que me resta agora é...
Em sua homenagem tomar uma Skol...
Viva a insanidade, a volúpia, a luxúria...brindemos a vida que nos sobra e a Amy faltou...
Mossoró, 23 de julho de 2011. Sábado nublado e triste.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Onde estão as pessoas interessantes?

Às vezes eu penso que tenho algum problema... Por que não consigo passar mais de três encontros com alguém? Seria uma espécie de maldição do quarto encontro? Ou incompetência? Frigidez? Muita vontade de dá certo? Será que sou exigente demais? Ou está faltando pares no mercado?
Realmente não sei...
Tenho convicção de que não sou uma mulher feia, relativamente interessante, engraçada, descolada, independente, milito nos movimentos sociais, danço bem, saio nos fins de semana, faço mil coisas ao mesmo tempo, tenho bom gosto musical, curto arte, praia e cachoeira...faço trilhas, entendo de política, economia e massoterapia, sei cozinhar, não quero casar, e sou apaixonada por futebol...o que alguém pode querer mais?
Uma pausa!! A realidade me puxou o tapete, pois quase todas as minhas amigas solteiras tem a grande maioria dessas características e até outras mais interessantes. O que há? Essa semana a mais linda – e glamourosa - de todas postou no facebook: “vamos fazer um pé de meia para frequentar os cruzeiros da terceira idade, porque casar esta difícil”. Me deu um verdadeiro desengano. Minha vida se destemperou – pelo menos a afetiva.
É um problema crônico... Todo mundo está louco atrás de alguém interessante.
Não que eu queira casar. Eu não quero... mas desejo ter alguém interessante ao meu lado para dormir agarradinho de vez em quando, rir de bobagens e ficar entediado. Quero alguém que me ligue nas noites de segunda para planejar as férias, combinar de ir ao show de Chico, ou apenas comentar amenidades.
Não precisa ser rico, bonito, espetacular, poético...não precisa ser o Brad Pitt ou o Tiago Lacerda, quero apenas alguém interessante. Meu reino por alguém interessante.
Estava pensando esses dias: onde estão as pessoas interessantes? Por que não encontro mais? Será que todas estão casadas ou em casa extenuadas de procurar outras pessoas interessantes?
Já procurei em barzinhos, shows, shopping, universidades, boates, praias, cidade grande e pequena, camping, nos meus sonhos...já tentei os descolados, os alternativos, os engomadinhos, os intelectuais, os marombeiros, os forrozeiros... e nada.
Penso que essa escassez de gente interessante tem haver com a lógica pós-moderna, sim, claro que tem, vive-se a sociedade do espetáculo, da efemeridade, do superficial, do supérfluo... Tudo é tão rápido quanto a manchete da Revista Caras. É isso? É a lógica cultural do capitalismo tardio? Ou será o pós-feminismo que faz as mulheres serem tão descartáveis quanto um lenço de papel? Ou seria culpa do empobrecimento cultural das décadas de 1980? Não encontro uma resposta clara... Como ser interessante nesses tempos de barbarização da vida social?
Será que o marxismo me enlouqueceu? É melhor parar com essas divagações regadas a abandono e voltar às leituras marxistas.  
Quem tiver respostas para essas questões: e-mails para essa cronista do pessimismo da razão.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mais um jovem morto por causa da Homofobia

Tem custado a nós um preço altissimo a inércia e o retrocesso que o poder público tem apresentado sobre o debate da homofobia e diversidade sexual. Como os nossos governantes tem expressado abertamente sua indiferença e preconceitos a sociedade também não tem mais limites para expressar o ódio e aversão aos LGBT's.
Esse é momento de nos protegermos, pq a ofensiva está crescente e cada vez mais cruel, mas sem dúvidas também é um período de LUTAR contra a todo esse ataque ao modo de amar que tanto tenciona o patriarcado - uma das estruturas centrais do capitalismo.

Jovem Homossexual é estrangulado, estuprado, esfaqueado e morto!

Eu não tenho palavras para descrever tamanha maldade e crueldade, mas eu tenho a quem culpar! Tenho que culpar os Deputados Federais, Senadores  ( Principalmente os evangélicos ), A Presidenta da República Dilma, por retroceder no combate a homofobia por conta de meia dúzia de hipócritas!


Antes de relatar a notícia, eu só quero deixar claro, que depois dos anúncios do Dep. Jair Bolsonaro, os crimes de ódio pela internet cresceram 70% e de acordo com dados Médicos e Psicológicos obtidos por alguns conselhos sem sua totalidade me informaram que danos físicos e psicológicos provenientes de agressões homofóbicas cresceram 45% até o momento em relato clínico e hospitalar. 


Agora deixo, mais uma triste notícia de um jovem de 18 anos que é morto, simplesmente por ser o que e é!



Hoje deixo o relato de um blog que traduz toda a revolta da sociedade perante um cirme cruel.Vejam :
Um domingo normal, um dia normal e recebo uma notícia que parece a cada dia mais normal em nossa sociedade. O jovem Ká Stock foi encontrado morto, vítima de um brutal assassinato na cidade de Natal. E de onde vem todo esse ódio aos gays? E que direito esses “seres humanos” tem de tirar a vida de outra pessoa? Por que os gays incomodam tanto a esse tipo de gente?


Gostaria de registrar aqui também o meu incômodo, mas não diante apenas deste fato lamentável e covarde, que mancha qualquer motivação em dizer que sou brasileiro. Estou incomodado principalmente diante desta situação que o país ignora. Enquanto milhões de evangélicos usam o seu “Deus” pra justificar a mediocridade em não aceitar a diversidade e negar os direitos aos gays, o “diabo” se manifesta da forma mais cruel possível, tirando vidas e deixando famílias e amigos desamparados pela dor da perda de alguém querido.


E onde estão os governantes, que deveriam colocar ordem no país? Foi por esse Brasil que depositamos votos de confiança em presidentes, senadores e deputados? Ao invés de combater, a presidente Dilma prefere vetar os projetos que ajudariam a sociedade a aprender o sinônimo de respeito às diversidades sexuais, sob o discurso de “não fazer propaganda de opção sexual”. Mas que opção, presidente? A única opção que aparece aqui é a de fechar os olhos e virar a cara pra essas barbaridades que acontecem diariamente em nosso país. Sinceramente, esse não foi o Brasil que eu escolhi.
Estou de luto, mas não apenas por uma pessoa. Estou de luto por uma classe que tem seus direitos mortos e a garantia de viver livre nessa sociedade ridiculamente homofóbica, preconceituosa, racista e hipócrita, já que não tem moral nem para olhar para os podres que guarda debaixo do tapete.


À família e amigos do jovem, meus sinceros pêsames e que Deus ajude a encontrar conforto pra essa hora tão difícil.
De acordo com informações oficiais fornecidas pela equipe de reportagem da InterTV e por um amigo pessoal de Ká Stock, o corpo do jovem de 18 anos foi encontrado hoje (29) pela parte da manhã em uma granja próxima a São Gonçalo do Amarante. O jovem estava voltando pra casa por volta da meia noite de uma festa com amigos, quando deixou-os em casa e saiu caminhando até sua residência. De acordo com amigo da vítima que testemunhou quando o corpo foi encontrado, sinais de estrangulamento, estupro e esfaqueamento estavam no local, além de ter tido os dentes quebrados e de ser encontrado com a boca cheia de terra, e sem roupa íntima. Depois desse crime bárbaro, só me resta perguntar: “e aí? Quantas vidas mais serão sacrificadas pra que nossos governantes aprendam que nenhum coração de mãe precisa passar pela cena de encontrar seu filho morto desta forma? Quando eles irão aprender que a única ‘opção’ que está em jogo é a de punir ou ignorar o fato de que nossa sociedade precisa de códigos de lei para punir esse tipo de atitude?”. Deu pra entender o recado agora?”

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mulheres inteligentes. Escolhas insensatas. Sina ou construção social?

Parece-me que as mulheres têm um verdadeiro fascínio por amores impossíveis e por homens que possam ou estejam à espera de ser salvos. Eu mesma tenho uma propensão a romances fadados ao fracasso. É impressionante!
A minha lista de desilusões é imensa e com muitas variações: garotos do ensino médio, gays, casados, recém-separados, garanhões, com desvio de conduta – que são os impressionantemente mais divertidos -, sedutores incorrigíveis, desempregados, intelectuais, emocionalmente fechados e quarentões com personalidade infantil. Aff!! Cheguei a pensar que tinham colocado alguma espécie de macumba ou maldição em mim. Será que meu nome está na boca de um sapo? Seria um dedo podre? Ou falta de sorte?
Definitivamente não é isso!
Se paramos para pensar, até as mulheres mais inteligentes sofrem deste romantismo escravizante. As maiorias das minhas amigas, inteligentes e bem sucedidas estão mal casadas ou em relacionamentos sem sucesso de público e crítica. Será que existe a possibilidade – concreta – de ser mulher, bem sucedida profissionalmente e ter um relacionamento estável e feliz, ou esporádico e desencanado?
Comecei a reconstituir em minha memória quantas vezes presenciei minhas amigas chorarem até ficar deformadas e jurar compulsivamente nunca mais voltar para aquele gostosão que a traiu, ou que não corresponde as suas expectativas, e alguns dias depois eu encontrá-las no restaurante, felizes da vida, com o dito cujo a reboque. Quantos conselhos amorosos desperdicei com amigas, ou, desperdiçaram comigo, e, fez-se – exatamente - tudo ao contrário do aconselhado, ou ainda quantos planos mirabolantes já fui envolvida ou arquitetei. Inclusive repensei quantas vezes esperei ligações em vão, ou postei frases para denotar minha felicidade, ou ainda, passei o dia inteiro online no msn, Orkut, facebock, twitter, badoo esperando para falar com a figura inutilmente.
É preciso cair na real, mulherada acorda!!! Eles sempre sabem onde nos encontrar, tem conhecimento de nosso telefone. Quando alguém quer ficar com você, não tem distância, filho doente, ex-mulher psicopata, enterro do avô, outro relacionamento, problemas financeiros, emocionais, ou de saúde... Quando se quer de verdade se forja o encontro. Se até as pedras se encontram, por que ele não te encontrará? Vamos nos libertar!!!!
Fico refletindo – cotidianamente - será que gostamos de sofrer? Evidente que não. As mulheres não gostam de sofrer, na verdade ninguém o gosta - com clara exceção dos apreciadores de Restart, o que agora não vem ao caso. A centralidade da questão é que fomos socializadas para idealizar um homem perfeito, cheio de qualidades e beleza, que cavalga em um cavalo branco e salva a donzela em perigo. Um homem que por ser forte e viril não pode expressar o que sente e por isso devemos salvá-lo de sua racionalidade e encaminha-lo as emoções mais profundas. Esse blá, blá, blá amplamente divulgado pelo romantismo do século XIX, e, consolidado pelas novelas, se materializou em nossas vidas e formatou uma imagem de mulher cuidadora, sempre apta a escutar, compreender e acolher o homem amado, já que é dotada dos mais puros e nobres emoções.
Nosso jeito de ser, se comportar, pensar e sentir foi moldurado numa lógica de submissão, cuidado, emotividade, e, espera. Por isso esperamos tanto o príncipe encantado. Até porque a Branca de Neve não se casou com a Cinderela, nem tampouco, a Gata Borralheira fez carreira, e, ficou sozinha aos 40 anos, a Chapeuzinho não transou com o Lobo mau, e, a protagonista da novela das oito não arrasa o coração do Mocinho. Todas as princesas casaram e viveram felizes para sempre. Nós que somos anomalias, nós, que queremos emancipação, que somos doentes e histéricas. Já dizia o Nelson Rodrigues: “as neuróticas reagem”.
Tudo isso faz com que a gente justifique e naturalize as piores ações masculinas, minimize a nossa capacidade intelectual, esconda publicamente a nossa conta bancaria mais recheada do que o companheiro para não humilhá-lo, ou pior, fique com um ogro –péssimo de cama- por medo de não encontrar alguém e ficar solteirona, entre tantos outros absurdos que devemos superar dialeticamente.
Companheiras!! O fato é o seguinte: príncipe encantado não existe, e, toda essa retórica, faz com que agente se boicote.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Apenas saudades de Recife...

Ultimamente tenho me sentido estranha. Falta-me algo. É um sentimento sedicioso, esvaziante e de extrema falta. Uma nítida, e, ao mesmo tempo dúbia, sensação de não ser nada. Passa tanta coisa em minha cabeça que não consigo dar conta de analisá-las, ou pelo menos digeri-las... Por que vim parar aqui? E, por que a realidade posta é tão coloquial e desprovida de beleza?
Estou com uma angústia inenarrável, é como se o ar estivesse faltando aos pulmões, tento respirar e não consigo. Absolutamente, quase nada, fica explícito ou belo. As manhãs rompem dia após dias, e, eu continuo a desejar uma cerveja poética, um cigarro inspirador e uma conversa sobre amenidades na Rua Aurora. É puro desengano. Queria passar o dia prostrada nessa rede escutando Chico Buarque e me deixando corroer pela melancolia, mas não tenho tempo para choramingar. Isso é abissal! Só escrever me acalma.
Isso é uma verdadeira disritmia. Mas, afinal, o que falta?
 Penso que seja o cheiro, o gosto e a vida de Recife.  Falta mar, aventura e fim de tarde na bucólica Rua Aurora... Até a tristeza tinha mais poesia na Veneza brasileira... O meu sol sertanejo precisa de Boa Viagem, meu espírito inquieto do Recife Antigo, e, minhas gargalhadas das ladeiras de Olinda.
Um cigarro, por favor! Ah, deixei meus vícios menos danosos...
Essa cidade é insípida, inodora e incolor. Falta o colorido e o caos metropolitano, sinto como se estivesse vendo tudo em preto em branco. A minha alma sapeca, boemia e vagabunda precisa ser embaraçada pela poética recifense. Saudades viscerais.
Tanto tempo em Recife me trouxe emoções inexplicáveis, ilógicas, profundas, contraditórias, enfim, sentimentos e histórias que ficarão eternamente nas minhas fotos, guardados e lembranças mais íntimas. Foi muita poesia, política, música, liberdade, radicalidade e desordem.
Na minha mente tão congestionada sempre vai ficar o velho Recife e minhas peripécias com Will, Monica e Heloisa, ou das aventuras com Valzinha nesse fantástico mundo desconhecido, das poéticas e embriagadas conversas com Verônica, e, das divagações filosóficas com Silvia.
 Sempre guardarei as lembranças das bebedeiras no Point Bar, e, da volta para casa na bicicleta de Dea... Existia uma poética nas loucuras perpetradas por mim, Manu e Adili no Cavanhaque, nas jogatinas no Margarida. Havia revolução em tudo, nos debates, nas conversas com Celso, nas risadas de Tati...nos palavrões que ensinei a Fiorela...e principalmente nos papos de madrugada com João.
Era muita subversão, desordem e rebeldia. A imagem de Alê e a que vos escreve empurrando um fusquinha em pleno Antigo e das gargalhadas proferidas na companhia de Chico e Dudu, é a lembrança de uma Suamy que acho não existir mais.
Estou como uma criança que não quis embora do parque de diversão, mas foi coagida. Tenho que exorcizar esses sentimentos ou reavivá-los.
Mas como? Se existe um laço inexplicavelmente forte, encantadoramente simples, e, de pura luxúria com Recife. Tudo por lá, por mais simples que seja, é festa completa e profunda boemia... Como diria o velho Chico: to me guardando pra quando o carnaval chegar!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Quem tem medo de ser Geni?

Nas últimas semanas venho ressuscitando medos, ressentimentos e indagações em relação à construção da sexualidade e nossa forma de amar, gozar e ser feliz. Por que tudo que causa prazer nos dimensiona num orbe de punição?
Em primeiro lugar o assassinato – brutal e covarde - de uma jovem de 16 anos pelo simples fato de ser lésbica me deixou abismada, entristecida e desacreditada na possibilidade de construção de “um novo céu e uma nova terra”. Para, além disso, tive o desagrado de escutar o relato de uma jovem universitária que chorou horas a fio por ter visto dois homens se beijando em um encontro de estudantes. E, como se não bastasse, tenho percebido que em pleno século XXI a maioria das mulheres – inclusive eu – se sentem diminuídas, desprestigiadas e recriminadas pelo fato, fisiológico, diga-se de passagem, de querer transar sem ter uma relação estável. Parece que escuto quando caminho nas ruas da cidadela que vivo Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um. Maldita Geni.
Afinal, o que significa ser lésbica? Que horror, asco ou sacrilégio pode haver em dois homens se beijando? Por que não se pode expressar os desejos e querer sentir prazer? Como não ambicionar ser proprietário de quem lhe desperta desejo, cobiça e luxúria?  Como não querer ser a Geni, se ela é muito mais excitante, misteriosa e lasciva? Não sei. Mas acredito que tenho algumas pistas.
Em primeiro lugar nossa sexualidade é formatada a partir da construção de negativas, proibições e tabus. Homem como homem não pode. Mulher com mulher dá jacaré. Menina vá vestir uma calcinha! Transar antes do casamento não pode, e, se pode tem que ser escondido. Masturbação enche a mão de pêlo. Mulher não pode transar no primeiro encontro já diz as manchetes das revistas femininas. Sexo anal é coisa de mulher da vida. Maldita Geni!
Assim, elabora-se social, política e historicamente um jeito de degustar o prazer, um modelo aprovado socialmente que parte da afirmativa heterossexual como forma correta de se relacionar sexualmente, considerando outras maneiras de expressar o desejo como anormalidade, desvio de conduta, perversão, doença ou até pecado. Assim, a busca pelo prazer é orientada por regras sociais que determinam o que é permitido, proibido, quando é permitido e proibido.
Para as mulheres soma-se, ainda, a obrigatoriedade de ser mãe, casta e casada. Uma “mulher de 40” solteira ou lésbica é uma verdadeira figura de mulher pela metade, que não deu certo, ficou para titia, ficou no caritó.
Acrescenta-se a isso a concentração da sexualidade na figura do pênis e no protagonismo da penetração; e, o papel de coadjuvante, complementar e preliminar dado ao sexo oral, anal e a masturbação. Uma amiga me disse certa vez que a grande maioria dos homens enxerga as mulheres como uma via expressa com três saídas: Peito leste e Oeste, Túnel do meio e Vagina central.  Eu gargalhei no momento, mas depois parei para refletir sobre as milhares de mulheres que tem castrado o direito de usufruir inteiramente de sua sexualidade, que nunca tiveram a felicidade de ter um orgasmo, ou ainda, que são obrigadas a dispor de seu corpo para o prazer de outrem, mesmo que este seja seu marido. O que faz muitas mulheres se sentirem iguais a Geni que “dominou seu asco, [...] se entregou a tal amante como quem dá-se ao carrasco”.
 Tudo isso faz homens e mulheres, sejam heterossexuais, homossexuais, bissexuais, transsexuais, travestis, transgêneros, pansexuais, ou nenhuma das alternativas anteriores, castrarem suas vivências sexuais, genitalizando-as, e, perdendo de vista todas as possibilidades de zonas erógenas contidas num corpo. Ou mais de um quem sabe?
O fato é que podemos vivenciar nossa sexualidade livremente, do mangue ao cais do porto, tal qual Sodoma e Gomorra, lambendo, sugando, desejando, beijando, abocanhando, comendo, suspirando, penetrando ou sendo penetrado. Inventando formas de extrapolar o prazer, que sempre coincidirão com a ruptura ou negação dos padrões socialmente erigidos.
Como afirma Nahra “Só uma sociedade cujo modelo de valoração é extremamente deturpado pode condenar o prazer que não prejudica ninguém. Ninguém deve se sentir culpado por amar, gozar e ser feliz”.
A grande questão posta na atualidade é que a cidade além de jogar pedra e bosta na Geni, arremessa lâmpadas, socos, balas, sorrisos amarelos de incompreensão, e, caras viradas. Vai com ele Geni????

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os meus 18 anos

Estive refletindo acerca das minhas divagações filosóficas e o pessimismo a que elas se articulam. Então resolvi socializar um texto um pouco mais leve, e, não menos filosófico, que mistura verdades e ficção, algumas minhas, outras de amigos ou das minhas lembranças inexistentes.
Qualquer coincidência - por favor desconsiderem. Este texto é de FICÇÂO.


Os anos vão se passando e revelando sentimentos confusos e conflitantes. Hoje por exemplo sinto saudade dos meus 18 anos, mas quem nunca parou para relembrar a docura desta idade? A rebeldia intrínseca e extrinsíca dos 18 anos?
Eu, por exemplo, aos 18 anos era magricela, muito beata e as vezes emílica. Conjugava em mim o avesso e o direito. Confesso que me apegava religiosamente a algumas coisas que o “santo” padre falava, na realidade de santidade ele não tinha nada, apregoava castidade, contudo, mantinha um romance com um coroinha da igreja. Tem coisas que só compreendemos perto dos 30.
Ademais, aprendi que numa pequena comunidade conjugar o verbo “trepar” pode trazer problemáticas para reputação que nem o melhor marketeiro do mundo conseguiria reverter. De certo, engrosso as fileiras das mulheres reprimidas sexualmente pela igreja, pela comunidade e principalmente pela família.
Recordo-me que aos 12 anos por ocasião de minha primeira eucaristia fui confessar-me ao “santo” padre que me indagou implacavelmente. Ou seria interrogou?
- Você fez alguma coisa de errado?
Eu, inocentemente, respondi que retrucava minha mãe. Ele solenemente me perguntou de forma mais aberta:
- você já fez inxirimento?
Eu repondi que não, mas a partir daquele exato momento descobri que sexo para muita gente era coisa errada e feia. Simbologia que ficou embricada em mim, por muito tempo, mesmo com todas as leituras críticas que fazia.
Comecei a querer mais do que beijinho na boca e sarros tediosos e santos na sacristia da igreja, concomitante ao momento da descida do espírito santo em mim – por intermédio da unção do bispo. Novamente fui confessar-me. Desta vez com outro padre, um senhor de mais ou menos 50 anos que – de acordo com as más línguas – transava com as coroinhas, tinha um affair com a secretaria da paróquia e fazia orgias homericas em sua casa de praia. Logicamente, são fatos que só tive conhecimento depois de balzaquiana e ateia.
Este senhor era imponente e eu permaneci calada sem saber o que dizer, quando fui baleada frontalmente:
- você fez algo de errado que queira me contar?
E eu, já com o germém do marxismo e um pouco de tensão pré-mestrual, respondi:
- o que seria errado para o senhor?
Ele, afrontando minha petulância me falou:
- você já fez algo de errado com os meninos? Ou quem sabe sozinha? Já pegou nas partes de algum menino? Eu falei prontamente: não, mas tenho muita vontade de fazer.
O padre me deu um sermão de uma hora e mandou-me rezar um rosário, o que despertou a curiosidade de todos os outros jovens. Penso eu que eles imaginavam: o que ela fez para receber uma penitência tão longa?
Dois anos depois estava lendo de Mariazinha a Maria um livro sobre sexo de Marta Suplicy, que certamente hoje não tem para mim serventia teórica, cedido por uma noviça baiana que se apaixonou pelo garoto que eu era encantada.
Traumas a parte, os beijinhos e sarros continuavam cada vez menos castos e puros, até que conheci alguém muito especial. Um momento para uma breve nota de rodapé: quando temos dezoito anos todos os homens são especiais, perto dos 30 se eles não forem carecas, sacanas e barrigudos e tiverem vários filhos e amantes já é uma vantagem. Enfim...e voltando ao assunto ele era muito especial, uma mistura autêntica de poesia e carnaval e nós nos apaixonamos. Começamos a namorar e depois de algum tempo resolvemos conjugar e materializar o verbo “trepar”. Fomos a casa dele e estavam presentes todas as ansiedades do coito inicial, mas como já estávamos craques na arte de sarrar, muito mais do que o Robinho na de pedalar e do que o Lula na de se candidatar, trepamos sem muitas delongas.
Aquele gozo clandestino dos 18 anos que hoje não tem a mesma subversividade. Meus olhos marejam quando lembro da inoscência daquele momento e também do medo de ser desmascarada, até porque minha mãe dizia que mulher descabaçada se conhecia pelo andar e os meninos do colégio diziam que era pela sombra. Eu sem conhecimento de causa fingi uma doença por uns dias, e o pior que nessa história acabei doente de verdade e por duas semanas. O fato é que quando voltei para a escola ele tinha pedido transferência e eu quase morri de desgosto como o Castro Alves, o mais engraçado é que algum tempo depois nos reencontramos e a paixão reascendeu, o que comprova minha histórica falta de sorte com os exemplares masculinos.
Depois dessa decepção mais sexual do que amorosa resolvi me confessar novamente com o padre, já que ele era obrigado a ouvir e a manter o assunto em sigilo confessional, e todo mundo sabe que quando agente conta algo a um amigo e diz que é segredo em três dias a escola toda já está sabendo. Fui lá na igreja e o padre me recebeu com a cara o que é que você fez de errado? Contei tudo e ele começou a falar de castidade, Maria, pecado e conversão, e me colocando na parede perguntou se eu me arrependia. Eu imediatamente disse que não e ele, como legítima autoridade eclesial, não pôde fazer o canal direto com Deus para me perdoar. Contudo eu voltei orgulhosa para casa. O gosto de rebeldia sempre me excitou.
O fato é que meus 18 anos ainda me preparavam uma surpresa encantadoramente carnal. Três dias após a confissão e a negação de Deus em me perdoar, comunicada pelo padre, eu fui a um encontro de líderes da juventude, nessa época eu achava isso importante, como hoje não tenho mais pretensão de entrar no céu, isso é uma bobagem. Nesse encontro conheci um jovem seminarista e me encantei. O bacana da juventude é que você pode sofrer por alguém três semanas mas esquecê-lo em dois segundos.
Aquele cara era o máximo, e se eu pudesse teria transado com ele ali mesmo, mas nesse dia nem telefone trocamos. Que bom que a igreja é um covil de gente pecadora e fulera, uma semana depois meu telefone toca e em um mês já estávamos no momento de apaixonite aguda, impulsionada pela minha beatice. Como eu era líder dos jovens tinha que viajar para os encontros e ele também, num certo dia de pecado, numa longíqua cidade do sertão e aos pés de São Francisco ou melhor em sua sacristia, eu e o seminarista transamos até cansar. Depois ele ficou meio arrependido e com medo de ser castigado, eu já tinha sido impedida de receber o perdão divino pelo padre e isso, em certa medida, me alforriava.
Alias aquilo tudo me excitava visceralmente, o que comprova minha capacidade de me encantar pela desordem. Hoje percebo que nossas inclinações sexuais não podem causar medo.
Passei um longo período transando com o seminarista e algum tempo depois com o pervertido recém padre, e era delicioso, pois tinha um clima de romance proibido, de sexo rebelde, de perversão...era repleto de tudo que a igreja condenava, em outras palavras, de tudo que nos faz feliz.
Tenho ótimas recordações da aurora dos meus 18 anos pois consegui – como poucas – superar a violência disfarçada da imposição de tabus e mitos sexuais, bem como da castração de uma virgindade obrigatória. Me deliciei com as loucuras sexuais mais diversas e rebeldes que construiram grande parte de minha personalidade.
Desse padre não tenho nem mais o telefone, só as lembranças – poucas e apenas sexuais – ele continuou no sacerdócio e eu enveredei por avenidas mais mundanas – das orgias nas cálidas e poéticas noites sertanejas.
A propósito hoje como uma legítima balzaquiana solteira fui para a boemia e encontrei o padre que me negou o perdão de Deus, patenteando-o. Ele está do mesmo jeito, com sua sexualidade sempre tocada por um belo e jovem rapaz. O que comprova que na noite todos os gatos são pardos e porque não dizer sexuais.    

Bar de Ilusões

Hoje tive uma percepção terrível. Observei-me numa mesa de um bar lotado e comecei a fazer indagações filosóficas sobre a juventude, a solidão e a felicidade. Senti um profundo vazio naquele lugar cheio de bebida, música e risos. Toda aquela “felicidade” levou-me a refletir sobre minha infelicidade, enquanto o cheiro de cigarro incensava a tudo e a todos.
Será que a juventude está me abandonando? Todos são tão felizes o quanto aparentam nesse bar? Ou tão descolados e poderosos? Afinal, que juventude é essa? O que pensa essa galera? Porque não consigo ver verdade nessa felicidade do bar da Cidade Universitária, e, muito menos, liberdade nessa mistura de drogas, sexo e marxismo acadêmico? Será que estou “encaretando”?
            Todos querendo ser os mais belos, libertários e sábios, disputando entre si pelas coisas mais toscas, conversando sobre as mais absolutas e profundas idiotices, e, gargalhando das piadas mais bobas e dos dilemas mais rasos. O que é melhor: casar ou comprar uma bicicleta?. E o Chico cantando ao fundo inutilmente. Ninguém o escuta.
            CANSEI! Já são altas horas. Todas as luzes da rua começam a ser apagadas e a roda dos assuntos não muda. Marxismo de bar, orgias pós- carnavalescas, MST, mais piadas bobas e gargalhadas mais sonoras e vazias... Traz mais uma cerveja! A solidão de uma “galera acompanhada” torna-se cada vez mais nítida. O samba tocando, os aviões passando e a minha sobriedade me crucificando. E nessa passada mais uma noite se esvai, e, morte se aproxima. 
            Talvez minha alma triturada de experiências tristes não consiga mais divagar por essas ruas mundanas. Ou tenha perdido a ilusão de encontrar alguém com mais profundidade do que um copo cheio de cerveja. Talvez eu precise me embriagar para ficar tão descolada, jovem, feliz, etc, etc, etc, como a galera do bar. Talvez eu deva fazer tal qual o cineasta Oscar Wille e beber para tornar as outras pessoas mais interessantes, tendo em vista que o álcool reduz consideravelmente nossa capacidade de ter censura.         
             Não.
             A única coisa que senti foi uma vontade inenarrável de chorar.
            Chorar e andar pelas ruelas nefastas da Veneza brasileira pode ser uma terapia bem interessante. Tantos rostos anônimos. Tanta cidade a ser explorada e gente a ser conhecida, e, eu com esse gosto de solidão levemente temperado por um cigarro que eu não cheguei a fumar.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Eu sou Gay?

Sejamos Gays. Juntos. abril 12, 2011 

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.   Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.   Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.   E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.   Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.   Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?   Quero então compartilhar essa ideia com todos.   Sejamos gays.   Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY   Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:   1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY   2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com   3) E só   Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.   A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.   Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.   As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.   Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.   — Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa


Forum de Mulheres de Pernambuco
Eu sou Gay

terça-feira, 5 de abril de 2011

Para sempre Cazuza...

Hoje voltei a fumar...sim...
Hoje voltei a fumar... Na verdade o cigarro é a coisa mais saudável que podia me acontecer nesse momento, pois sinto que viver está acabando com minha saúde, felicidade e poesia. Se é que algum dia eu as possui ou fui possuída por elas.
Toda essa melancolia se abateu sobre mim quando abri minha agenda, e me defrontei com a data importante – o aniversário de Cazuza. Por que essa data seria tão relevante para mim? Simples como um cartão postal, o poeta exagerado sintetiza toda loucura que um dia desejo extravasar.
Comecei a me envolver com seu jeito mutante de ser quando o escutei pela primeira vez...sua voz parecia um convite a luxúria e a insanidade. Apaixonei-me. Não como adolescente. De modo algum, minha paixão por Cazuza foi sexual e animalesca. Depois de algum tempo descobri que ele não gostava de seu nome e isso nos conectou fortemente. Afinal, eu rejeitava meu nome porque achava que ele não me descrevia. Ele era calmaria e eu vendaval. Um verdadeiro ciclope, uma tempestade, uma ressaca? Não um tsunami. 
De fato, sempre houve um laço visceral entre minhas divagações e o Cazuza, entre sua rebeldia perturbadora e o meu desejo – incontrolável – pela desordem.  Sempre me excitei pelo lixo noturno, a cara deslavada do cinismo e da ironia, e, principalmente, por minha crescente capacidade de me entusiasmar com a repulsa que posso causar as mentes conservadoras. Sem esforço algum – sempre - gozei com a insolência, a petulância, o atrevimento. Como dizia a homilia disciplinadora: sempre pequei pelo gozo ao enxirimento. Essas coisas que revelam nossos sentimentos mais íntimos e às vezes até pérfidos.
Neste emaranhado de coisas que querer sair de nossa boca ou entrar ... em nossas cabeças, o Cazuza sempre me conectou a poesia mais sórdida e extravagante que há no mundo.  Se vivesse seria quase um sexagenário, e eu, quase uma balzaquiana...
 Mas o que me faz sentir tão entristecida? Qual a relação existente entre aquela que não ouso despertar e o Cazuza?
Há uma extrema vontade de gozar a vida, de fumar a última piuba de cigarro encontrada em qualquer cinzeiro abandonado numa mesa desconhecida, de amanhecer numa esquina além-mundo proclamando declarações de amor tão verdadeiras quanto uma alucinação branca...ou seria multicolorida?
Não sei.
Só sei que às vezes me deparo como o Cazuza na porta de alguém pedindo colo, consolo, sexo, cigarro ou simplesmente fogo para continuar tecendo ilusões amargas e sorrisos dignos de Oscar. E, que quando abraço o mundo com as pernas, ou lambo o chão da noite, ou me desespero com a caretice patética de um sexo comportado com meu príncipe encantado, não sei se sou eu mesma ou se é apenas a mulher que projetei em minhas fantasias.
Como o Cazuza também disponho em meu arsenal bélico de uma metralhadora cheia de mágoas, mas o alvo primordial de minha balas – de festim - é a mulher balzaquiana que estou me transformando...será que Ele encaretaria?
Apenas sei que - assim como o poeta - também chegará o dia que cantarei blues e sentarei em frente à praia de Boa Viagem - com velhos novos amigos ou completamente sozinha - relembrando como fui profunda, fugaz, evasiva, hostil, aleive, verdadeira...e estarei pronta para seguir na vida tecendo grandes relações que durem eternamente uma noite, e, a disposição para fumar o último cigarro e beber um ultimo gole de cerveja... Escutando um tango, beijando uma dama de vermelho e rebelando-se cada vez mais.
 

Salve, Salve Cazuza...

segunda-feira, 14 de março de 2011

“Certezas, angústias e desabafos: uma breve reflexão sobre a docência no Serviço Social”

Tenho plena convicção que socializei com amigos o fato de que não iria escrever nada sobre o Serviço Social nesse espaço de reflexão afetiva. Mas não resisti...
Hoje algo de estranho me aconteceu e tenho que socializar em texto. Há muito tempo venho refletindo acerca da universidade, do processo de produção do conhecimento e da profissão de educador (a).
Sempre desejei ensinar e contribuir no processo educativo dos sujeitos. Ensinar é místico, solidário, transformador e revolucionário. Lembro que ao entrar na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) esse desejo foi aprofundado por meio da intervenção qualificada de grande parte do corpo docente. Sujeitos políticos profundamente revolucionários, amorosos e humildes que militavam junto aos discentes nas lutas sociais mais diversas e nos espaços da cotidianidade – inclusive nos botecos mossoroenses e luais do movimento estudantil, sem rupturas nos níveis de responsabilidade de cada um (a).
Aqui vou agradecer – publicamente - as professoras Mirla Cisne, Telma Gurgel, Fernanda Marques de Queiroz, Rivânia Moura, Aione Maria, Iana Vasconcelos, Joana Lacerda, Glebson e Gláucia Russo por terem me ensinado que o processo educativo é uma construção pedagógica que extrapola a ciência e a técnica, e, requer virtudes como amorosidade, rebeldia, irreverência, respeito, alegria, disponibilidade à mudança, persistência na luta, tolerância, reciprocidade e, principalmente, humildade e diálogo.
Compreendo perfeitamente os processos de precarização e a ofensiva constante que os/as professores/as universitários/as vêm sofrendo, materializados pela sobrecarga de trabalho, condições precárias de ensino/pesquisa/extensão, a macdonização do ensino superior corporificada na pressão por produção, a expansão do ensino superior privado e a distância, a questão das perdas salariais, a constante corrosão dos direitos sociais e o refluxo das lutas sociais.
No entanto, vale lembrar, que o Serviço Social brasileiro vem passando nas últimas décadas por um processo de renovação, e se constituído enquanto espaço de rebeldia, crítica e luta por uma intervenção profissional que rompa com o conservadorismo e comprometa-se com a luta da classe trabalhadora, e, com a construção de uma nova forma de sociabilidade. Ao meu ver, o projeto ético-político do Serviço Social aponta a necessidade de um profissional comprometido com a liberdade e a emancipação humana, e sendo assim, capaz de romper com o arbítrio e o autoritarismo e estabelecer o diálogo.
Relembrando Iamamoto (2001, p.141) “a consolidação do projeto ético- político profissional que vem sendo construído requer remar contracorrente, andar no contravento, alinhando forças que impulsionem mudanças na rota dos ventos e das marés na vida em sociedade”.
Ainda, em relação ao projeto ético-político, Netto (1999) aponta que os projetos profissionais são a auto-imagem de uma profissão ao eleger valores que a legitimam socialmente, delimitar os objetivos e funções, apontar balizas para o comportamento dos profissionais e sua relação com os/as usuários/as de seus serviços.
Nesse sentido, a prática educativa no Serviço Social deve ser pautada na problematização da sociabilidade capitalista e seus (des) valores. E sendo assim, constituir-se como um processo humanizador que proporcione uma práxis transformadora para libertar os homens e as mulheres da situação de subordinação que o modo de produção capitalista lhes impõe.
            Por tudo isso, nosso processo educativo/pedagógico deve ter como pressuposto a crítica ao que Paulo Freire - tão bem - conceitua de ‘ensino bancário’.  Nesta perspectiva o conhecimento é uma transferência dos que se julgam detentores do saber aos que julgam nada saber, dos que têm a fala competente e dos que desprovidos dos oráculos do pensamento sofisticado só resta à repetição das teorias já elaboradas. Convém mencionar que a ‘educação bancária’ tem como fundamento a absolutização da ignorância, sendo, pois, o aluno objeto da intervenção do professor, considerado desta forma como um mero recipiente vazio onde se depositarão conteúdos assim como se depositam valores em um cofre.
É uma espécie de domesticação do educando que desumaniza o ser humano a partir da construção de um tipo de conhecimento repetitivo, pragmático, decorativo, que transfere conteúdos de forma taylorista/fordista com uso de cronometro, com rigidez, padronização, centralização e culpabilizando o/a educando/a pelo insucesso acadêmico. Nas palavras de Paulo Freire “(...) a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será”.
Essa forma de educar mistifica a verdade, nega a construção do diálogo, desconhece a processualidade e historicidade das relações sociais, e dessa maneira acaba por produzir e reproduzir práticas imobilistas, repetitivas, fixistas, hierarquizadas e dominadoras que são perfeitamente compatíveis com a manutenção do status quo (criticado tanto pelas vertentes de esquerda quanto pelas mais conservadoras do Serviço Social).
Por tudo isso, a concepção de ensino compatível com o Serviço Social crítico e comprometido com a luta da classe trabalhadora é a problematizadora, empenhada com a desmistificação da realidade e com a libertação, comprometida com o dialógo e capaz de contribuir para que os/as indivíduos se transformem em sujeitos históricos. Não é transferência de conhecimento, mas constituir as condições para que o conhecimento seja produzido e construído, se configurando como uma responsabilidade política. 
Por ter compromisso com a luta da classe trabalhadora, e, com a prática educativa no Serviço Social, e por acreditar na máxima freiriana que não é no silêncio que os homens e mulheres se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão, que aponto essas reflexões sobre a docência.
[...] os homens [e mulheres] se educam entre si, mediatizados pelo mundo. (Paulo Freire)

quinta-feira, 3 de março de 2011

“A vida em chamas” - retalhos de reflexão sobre a folia carnavalesca

Quando chega fevereiro "um espectro ronda o Brasil" e tudo pára. É impressionante.
Todos nós somos bombardeados pelo espírito carnavalesco. Mesmo quem não gosta de folia é enredado pela embriaguez do período, seja pelas vitrines das lojas abarrotadas de fantasias, ou, no apelo midiático da festa. Eu mesma, como diria o Chico, passo o ano todo “me preparando para quando o carnaval chegar”.
Mas o que faz esse período ser tão especial e afetar a vida de todos?
Simplesmente são quatro dias mágicos, prófugos e inebriantes... É o momento do ano em que somos transportados a um orbe fantasmagórico, e, nele perdemos de vista todas as mazelas e infelicidades do mundo. Ganhamos asas, garras e poderes sobrenaturais. 
Nesse período as preocupações, as contas e as tristezas são colocadas em segundo plano. Esquecemos as mulheres violentadas e mortas pelos seus companheiros, as lutas pela terra, o nefário aumento do salário mínimo, a cara de pau dos políticos de Brasília que aumentam os seus salários anos após ano, as filas para receber atendimento médico no SUS, o encarecimento da cesta básica, o desemprego estrutural, enfim, superamos de forma rápida, eficaz e –absolutamente - efêmera a ideia de que a classe trabalhadora está, cada dia mais, se deteriorando.
Não se pode ignorar que o carnaval é uma reedição, endiabrada, do pão e circo romano, para alienar e manobrar a classe trabalhadora, mas precisa-se explicitar que essa folia empreendida pela racionalidade burguesa é embriagante e profundamente orgasmática.
O carnaval nos dá quatros dias para materializar absolutamente tudo que não é feito no cotidiano. Isso mesmo! Você pode beber até cair e vestir-se de mulher, dançar freneticamente, beijar enlouquecidamente e várias pessoas no mesmo dia, ir atrás do trio elétrico e dançar o creu na velocidade cinco mesmo sendo feminista, cantarolar as músicas mais frívolas e passageiras, ficar super chapado, fazer amizades eternas e encontrar um grande amor que dure exatamente um carnaval...e repetir tudo isso de novo pois é o seu único compromisso por quatro dias seguidos. Trocando em miúdos, é uma licença social para você deixar de ser você. Ou será que você é realmente você no carnaval? É extraordinário...
Nesse sentido, a folia profana pode ser compreendida como uma representação, uma alegoria, uma pausa na realidade, um furto à razão. Nada mais do que o desejo de ser outra pessoa apenas por quatro dias, e, de “romper provisoriamente” com o peso do cotidiano, e, de suas obrigatoriedades que baleiam frontalmente o gozo, apagam o fogo, entediam a vida. E, para, além disso, limitam, ou pelo menos, enfeiam o nosso imaginário.
Estou convencida que a folia carnavalesca é uma pausa necessária. Uma breve suspensão da razão. Depois dela tudo volta ao que nossa vida acinzentada convencionou chamar de normal. Retorna-se ao trabalho, estudo, formalidade, preocupações...é um triste regresso a "calmaria perversa" da exploração alienada do capital, e, a conservação de todas as relações conservadoras que circundam a lógica burguesa.
Por essa razão a quarta feira de cinzas é tão triste. Ela é um choque de realidade.  Acorde camarada! A fantasia terminou.
Quando volto do carnaval eu tenho uma sensação de semi morte, chego a não conseguir exteriorizar esse sentimento em palavras... Simplesmente inenarrável. É a certeza que toda alegria que sentimos nesses folgosos dias se esvaiu entre os dedos... É um sentimento de ressaca coletiva...porque o carnaval é o gozo da embriaguez. Em resumidas contas: é a cara insossa e debochada da derrota.

P.s: por isso que se bebe e se faz tanto sexo no carnaval. Fato incontestável. Como diria um amigo de Recife: Adorooooooooooooo desordem!!!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Filsosofia em Mafalda

Angústias de um educador

Nos últimos anos tenho movimentado minhas energias para refletir sobre a educação. E, confesso, não tem sido uma tarefa prazerosa, pelo contrário, tem me tirado o sono, o apetite e a esperança.
Tecer essas análises tem proliferado meus cabelos brancos e angustiado minha alma, de uma forma inesperada. Sinto que ver o mundo de forma crítica é como estar pelado no Alasca... Desesperador.
A educação sempre me conectou ao belo que há no mundo, mas, há tempos venho me decepcionando com a prática docente. Tenho me deparado com uma estagnação filosófica amarga entre educadores (as) e educandos (as). Nada me consola e me devolve a embriaguez da docência. 
Em primeiro lugar, tenho me sentido como uma mercadoria, um instrumento para processamento de dados, uma tradutora de teorias, um aterfato técnico; não mais um fio condutor de diálogo, ou, um redemoinho de reflexões filosóficas. Há algo de podre no Reino do conhecimento. Não sinto o encantamento e a mística libertadora da cadência do saber. Meu olho não brilha mais... Meu fogo acabou. Marx onde está a gasolina?
Transformei-me em uma adestradora. É isso mesmo, adestro pessoas à lógica do capital. É isso? É puro controle social? Não sei. O fato é que ensinar deixou de ser arte, poesia e revolução. Não tenho tempo para sonhar. Tenho que publicar enlouquecidamente, pesquisar todo semestre, ministrar várias disciplinas, orientar, ser exemplo de conduta... Incorporar novas tecnologias que mudam cada vez mais rápido... publicar, palestrar, dar cursos, participar de seminários, simpósios, eventos...pesquisar...publicar...dar aula...tudo tão rápido que não tenho tempo para pensar, escrever, e muito menos gozar. A docência me robotizou... Sugou até a última gota de poesia. E como viver sem poesia?
A cada dia eu escrevo o que já escrevi, repito os exemplos já proferidos... reparto o conhecimento em milhares de pesquisas...trilho caminhos que já percorri...UMA PAUSA!! Provas a corrigir... artigo para (re)publicar...Durmo e acordo pensando em qualis A, em publicação internacional, blá, blá,blá...a técnica se depura cada vez mais...me tecnifico em escrever coisas banais, disputo com meus pares para alocar recursos, consumo filosofia de boteco...e o bicho papão me persegue nos meus sonhos e grita: publique ou pereça!!!!
Não sei se sou feliz... Não tenho tempo para ser feliz. Como diz Chico: “[...] Todo dia eu só penso em poder parar, meio- dia eu só penso em dizer não, depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão...”
Nessa roda viva da construção do conhecimento a universidade se expande, os universitários se proliferam feito verme em carne podre, o mercado subordina a filosofia e a arte, o conhecimento se transforma em instrumento de tutela social e os professores são expropriados de seu saber. É uma  macdonização do conhecimento...“ uma expansão em que as coisas crescem para menos”.
E eu?
...Finjo nada disso saber e atesto minha carta de bons antecedentes ideológico, dia após dia.