terça-feira, 28 de maio de 2013

Quem tem medo da Marcha das Vadias?



Penso ser importante discutirmos a respeito da Marcha das Vadias. Esta tem ganhado inúmeros antagonistas pelo simples fato de publicizar as questões do corpo, da sexualidade, a denúncia da violência e a luta pela legalização do aborto.
Leio nas redes sociais verdadeiras aberrações: “a Marcha deturpa o movimento feminista porque usa o corpo como instrumento de enfrentamento”; “a Marcha incita as mulheres a libertinagem e não a liberdade”; “a Marcha é abortista”; “a marcha é femista”; “a marcha é um bando de feminista que não sabe nem porque esta ali em marcha”.
Nossa!!!  Como a Marcha movimenta as pessoas. Mas por quê?
A poucos meses teve em algumas cidades do Cariri algumas passeatas contra a violência contra a mulher que ganharam apoio institucional – não que deseje isso, obviamente – e ampla aceitação dos sujeitos sociais mais diversos. Então o que há de tão errado com a Marcha das Vadias?
Tenho algumas pistas para reflexionar acerca desta questão que – obviamente – não são conclusivas, mas a Marcha das Vadias questiona o lugar das mulheres no mundo e a naturalização das relações desiguais entre os gêneros. É contestadora, e sendo assim não agrupa a mídia e nem dá foto nos sites institucionais.
Nesse sentido, a Marcha expõe a marca das múltiplas violências impetradas contra as mulheres, @s negras, os homossexuais, as lésbicas, @s transexuais, @s travestis e @s transgêneros e sendo assim visibiliza a necessidade de a curto prazo formular, executar, monitorar e avaliar políticas públicas de combate, prevenção e punição dos violentadores; e a longo prazo denuncia que estas políticas são insuficientes para a resolução da problemática sendo portanto, urgente e imprescindível, a luta pelo fim do capitalismo, do patriarcado e do racismo. Ademais, explicita a necessidade de se desconstruir valores, conceitos, códigos de conduta, lugares, atributos, espaços, jeitos de ser, viver e se comportar.
A Macha retira as mulheres do espaço doméstico a qual estas foram destinadas e as coloca na rua, este espaço que nos foi historicamente negado. Na rua? Falando de sexo? Lutando para gozar, amar e ser feliz sem explorações de gênero, raça, classe e orientação? Essa Marcha é subversiva dizem as más línguas. E é isso que se quer mesmo!!! Subverter a ordem. Alias quer-se destruir a ordem, pois esta só serve para manter o status quo dos exploradores.
Lembro-me das companheiras que foram as ruas na década de 1970. Por quê?  Porque 40 anos depois o nosso corpo ainda é considerado objeto de desejo dos homens. Quatro décadas depois ainda escrevo cartazes dizendo: “teremos os filhos que quisermos, se quisermos e quando quisermos” e “o nosso corpo nos pertence”, tal qual as feministas de 70. As mulheres, 40 anos depois do feminismo radical, ainda compartilham o medo de ser mulher, de ser mulher negra, de ser homossexual, de ser lésbica, de ser travesti e de ser transexual em uma sociedade em que os homens acham que podem usufruir de nosso corpo mesmo quando agente não quer; e ainda colocam desculpas em seus extintos animais, na roupa da mulheres, na prostituição, na embriaguez e em tantas outras desculpas esfarrapadas. Se o problema é a roupa por que as mulheres que usam burca são estupradas? Se o problema é o corpo cheio de curvas a mostra por que as mulheres idosas são violentadas? Se a questão e a insinuação por que crianças de berço são violentadas? Por que as mulheres casadas são estupradas pelos seus próprios companheiros?
A questão central esta no fato de ser mulher. Como já dizia a feminista: quem mandou nascer mulher? E eu acrescento quem mandou não ser heteronormatizado? Quem mandou ser diferente num mundo em que as ideias que dominam são as ideias da classe que domina?
 É o castigo da mobilidade. Todas as vezes que tentamos sair dos lugares historicamente impostos para nós somos castigadas, reprimidas, violentadas e o discurso machista vai e diz: “a rua não é das mulheres”. A rua também não é das travestis, não é das transexuais, não é dos homossexuais e nem é das lésbicas. A rua, no discurso conservador, é dos homens.
Não vou nem comentar o termo “femismo” pois este só mostra a completa ignorância de seus defensores. Todas as vezes que as feministas avançam são taxadas e rotuladas, em 1970 elas eram mal amadas, frígidas, queriam ser machos, feias, dentre outras conceituações machistas, hoje se lutamos somos femistas. E dizem por ai que queremos subjugar os homens. E pasmem. Mulheres dizem isso.  Mulheres, homens, trans, sem gênero, sem sexo, putas, santas e vadias: “o feminismo é a ideia radical de emancipação humana”. Não é igualdade formal nos moldes do capitalismo, embora tenhamos que realizar ações dentro da legalidade burguesa, é igualdade, fraternidade e liberdade real, em que o trabalho alienado possa ser substituído pelo trabalho associado.
Se a marcha é abortista? Apenas a ignorância pode sustentar a ideia de que a luta pela descriminalização e legalização do aborto é necessariamente igual à imposição de processos abortivos as mulheres, ou ainda à elaboração discursiva de que as mulheres abortariam mais porque elas gostam de abortar. Não temos que ser contra ou a favor do aborto. Temos que ser contra ao fato de que a vida sexual e reprodutiva das mulheres seja decidida pelo Estado, pela ciência, pela Igreja ou pelos homens; temos que ser contra a contradição das mulheres ricas abortarem sem nenhuma restrição e as mulheres pobres utilizarem talos de mamona, facas, tesouras e antenas de tv para realizarem abortos; temos que ser contra a paternidade descomprometida; temos que ser contra a violência institucional que as mulheres em situação de abortamento são submetidas.
Se a marcha quer destruir a família? Quer-se rediscutir o que é família e sua funcionalidade para manutenção do patriarcado, do capitalismo e do racismo. A família condensa em si, em miniatura, todas as contradições da sociedade. Portanto, se a Marcha não quiser destruir a família patriarcal monogâmica: eu quero. “Descontruir o número de escravos pertencentes a um homem e condizentes com o Estado burguês” que faz das mulheres reprodutoras de força de trabalho e de mais reprodutoras.
O direito de ir as ruas é inalienável de homens e de mulheres. Portanto, insistiremos em cometer o pecado da mobilidade e tomaremos conta das ruas com intuito de sensibilizar, chocar, denunciar, espernear, lutar, gritar e desconstruir essa sociedade violenta e castradora de nossa liberdade.
Vamos lá companheirada!!! Falta teus passos nessa Marcha.
A RUA É DAS MULHERES!!! DAS TRAVESTIS!!! DAS LÉSBICAS!!! DOS HOMOSSEXUAIS!!! DOS TRANSEXUAIS!!! DOS TRANGÊNEROS!! DOS HOMENS!!!
A RUA É NOSSA!!! VAMOS MARCHAR


sábado, 27 de abril de 2013

Afago


Uma taça de vinho, Chico Buarque na vitrola, livros abertos mendigando serem lidos e uma sensação de falta impregnada nas paredes. Sinto que dentro de mim existe um espaço em branco. É uma dor atormentadora, que não sei onde começa e onde termina... se é que termina.
 Às vezes vago pela noite, agora sóbria e ainda sozinha. Aliás, a solidão sempre foi minha companhia preferida e minha amante esperada. Somos companheiras e camaradas. Dançamos no meio da noite, transamos luxuriosamente, gargalhamos embriagadas e enquanto o dia não vem, ela me conta histórias e vigia meu sono.
A solidão é parte constitutiva de minha alma. Sei que sempre voltarei para os seus braços. A última dança sempre será nossa.
Que coisa estranha. Tantas histórias, tantos amores, tantas recordações... mas no fim de tudo sempre estou num quarto escutando Chico e brindando minhas vitórias diárias com ela.  Ou andando na praia segurando sua mão. Ou ainda desbravando as noites sertanejas com seu cheiro entranhado em meus cabelos.
Não há como fugir. Somos siamesas. E eu dependo dela para existir. Preciso tocar sua boca vermelha e atroz. Dependo dela. Preciso de seu toque no meu sexo.
Ela fulmina meu olhar e ler todas as minhas idiossincrasias. Rasga minhas mentiras.   Vomita nos meus sonhos.
Me bate na cara, puxa meus cabelos, rasga minhas vestes e me joga na sarjeta. E eu? Corro atrás dela desesperada, me humilho e transponho. Rogo pela sua presença. É o único amor que conheço.
Somos feitas de sangue e cerveja. E ela sempre volta. Tal qual menina carente. Todos a rejeitam, mas eu não. Desejo sua presença, pois esta é meu sustentáculo.
Daí chamamos a Maria Bethania e dançamos juntinhas. Ela deita ao meu lado e dorme comigo de conchinha. Depois se vai como todos os homens e mulheres que me amaram. Mas quando a noite chega ela retorna com um bom vinho e louca para me despir.

sábado, 20 de abril de 2013

Eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas? Algumas reflexões sobre o aborto.



Quando escuto alguém defender ou criticar o aborto a partir de pressupostos morais, jurídicos ou religiosos em minha cabeça começa a fervilhar inúmeras indagações a respeito da vida das mulheres. Provavelmente, todos que tecem reflexões sobre o aborto jamais tiveram a “necessidade” ou a imposição de abortar ou ver alguém abortando.
Minhas experiências pessoais em relação ao assunto me deu – e continua dando- um profundo e silencioso medo. Pois é. Medo da morte, do julgamento moral/religioso, da perda, de ter controle sob seu corpo; medo de ter errado, medo de ter remorso, de ter a lembrança silenciosa... medo de ter medo.
Todas as sensações do processo de abortamento ainda estão vivas em minha memória, por mais congestionada que ela seja. O cheiro do hospital, o olhar das pessoas, a sensação pecaminosa de alívio, o gosto insoso da comida, a imagem do feto, a dor, o medo da morte. Vivências profundamente conflitantes.
Recordo-me que meu espírito feminista entrava em conflito com minhas raízes católicas, e, pensava olhando as outras mulheres em situação de abortamento naquele hospital, como elas estariam se sentindo? O que ou quem as impeliu tomar tal decisão? E depois de feito o procedimento como conviver com as lembranças?
Um aborto marca a vida de qualquer mulher para sempre. Mesmo ela sendo feminista, tendo convicção que não tinha as condições objetivas para criar/educar a criança, ou de que não queria ser mãe solteira, ou ainda de que aquele filho/a atrapalharia sua vida profissional ou acadêmica. Mesmo com o conjunto de explicações e motivos para tomar tal atitude, um aborto nunca será esquecido.
Certamente a questão do poder e controle sob o seu próprio corpo deve ser levantada nesse debate, assim como a legalização e formulação de políticas públicas para abortamento, entretanto, deve ser pautado nos discursos, estudos e pesquisas a relação subjetiva/objetiva entre mulher-maternagem e maternidade... na minha vida assim como na vida de outras Marias clandestinas esses debates acalourados que são feitos por feministas e religiosos não faz menor sentido. O Estado Laico para nós é uma necessidade e a ausência deste uma mácula em nossa vida.
O aborto é uma despedida de algo que não veio, a morte que precede o pressuposto da vida...uma sensação de coisa inacabada. Quando será que as mulheres vão superar essas sensações? Quando será que eu vou superar essas sensações?

p.s: a presente reflexão é uma obra fictícia. todos os dados aqui expresso são criações literárias.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tempos difíceis


Hoje acordei com o chefe de pé ao meu lado. Veio me visitar. Não levantei as minhas vistas para que não percebesse o lixo humano em que eu tenho me transformado. A visão do meu quarto expressa isso, com roupas no chão, livros amontoados, garrafas de cervejas espalhadas, restos de cigarro... Restos de mulher. Às vezes eu queria sumir. Acho que estou enlouquecendo.
Logo depois começou a tecer um enredo que todos têm vontade de me dizer:
 - Você está com problemas! Só te vejo ressacada. Você está debilitada. Precisa ir ao psicólogo ou até psiquiatra.
A sentença conservadora martela:  Está com problemas.
Sentenciou finalmente: - está com problemas com álcool.
Só tive forças para responder: - vou fumar um cigarro.
Não tenho problemas com álcool. Tenho problemas com a sobriedade. É insuportável está sóbrio. Deixa-me espaço para reflexão e pensar é trágico. Todos querem dizer o que eu devo ponderar e fazer, por onde devo andar ou não, como devo me vestir e me comportar. Todos querem me normatizar. Eles querem que eu tenha um diploma  de bom comportamento. Isso me apavora.
Um lexotan por favor! Pode ser misturado com uma dose de vodka e duas pedras de gelo. 
Seria pedir demais ser amada ou pelo menos incensada?
Mas como podem me amar se nem eu tenho esse sentimento por mim. Estou me sentindo tal qual a Balada da arrasada: “arrasada, acabada, maltratada, torturada, desprezada, liquidada, sem estrada pra fugir”.
De fato eu busco toda noite algo para me divertir. Não encontro. Mas eu só queria alguém para me ouvir, dormir ao meu lado e me oferecer um abraço, mesmo que ele não seja sincero.
Será que se eu morresse alguém iria se importar? De verdade. Acredito que não.  Sou apenas uma bêbada com um cigarro na mão e o Marx na cabeça. Tempos difíceis... talvez perdidos..com gosto de morte. Que sentido tem viver sem sentido? Cansei.

Cansei de ilusões. Partindo.

sexta-feira, 29 de março de 2013


Há muito não apareço por aqui. Não conseguia mais escrever, já que minhas crônicas, textos e versos eram expressões da melancolia e do desespero que me acompanhavam. A paixão estava assassinando minha inspiração. Por esses dias felizes ousei twittar que sentir-se apaixonada era uma chatice pois obstacularizava minha capacidade de escrita.  E indagava-me sarcasticamente: escrever ou amar, eis minha grande questão? Por que os dois juntos são um porre e eu gosto é de me sentir embriagada.
Apaixonar-se é tédio estendido. Fato. Insuprimível e incontestável.
Hoje estou – novamente - a engolir a madrugada com lágrimas e a inundar minha alma de Maysa.  Para os expectadores de plantão: não, não me desapaixonei. Do contrário. Mas descobri que por mais que eu ache que esteja feliz ou realizada, a tristeza é um fardo, um carma, uma marca em minha existência que nunca poderei me livrar. De fato, apenas as lágrimas podem transmutar-se em prosas e versos que acalentem outras almas dispersas.
Não sei escrever sobre o amor. Talvez por que nunca tenha sido algo presente em minha vida. Sou uma alma perturbada como bem sabe os meus parcimoniosos e fieis leitores. Sempre tive vocação para a tristeza. Não adianta. Ela me persegue tal qual as minhas primeiras rugas no reflexo do espelho.  Mas não me apavora. Estou acostumada a ser triste e sozinha. Felicidade é que me assusta. E, às vezes me enjoa.
Há uma conexão inescrupulosa entre essa que escarra lamentações e tudo que há de mais cru e infeliz. Não há como fugir desse desespero que me afeta e me enfrenta todas as vezes que olho para o espelho, relembro velhas histórias ou vejo fotos antigas. Marcas que ninguém em vida pode superar.
Todas as vezes que saio de minha terapeuta tenho sensações orgasmáticas e febris. Tenho vontade de sentar num buteco de beira de estrada e me embriagar, as vezes tenho vontade de sentar na calçada e chorar e outras de gargalhar como uma louca no meio da noite. Ela deve chegar em casa com a mesma sensação. Nenhum ser humano poderia escutar tanta tristeza e sair ileso. Coitada. E ainda fica a me estimular a ser feliz. Triste trabalho. 
Mas, existem pessoas e coisas insuperáveis. Eu sou uma. Desamor é outra delas. Você não teve na tenra infância, na pacata adolescência e agora sai desesperada a preencher lacunas de amor? Não. Tem perdas e ganhos que são irrecuperáveis. Eu só um. 
Eu sei disso. A rejeição acompanhou minha vida quase toda. E apenas a academia e a militância política puderam preencher tal espaço em branco. É por isso que não me levo tão a sério. Agora sei que a melancolia vai sempre me acompanhar e ser reavivada quando receber telefonemas indesejáveis de pessoas que deveriam ser desejáveis.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Reflexão de Emanuele Chaves sobre o mestrado

Ao concluir dois anos de Mestrado, você se torna um ME... Um merda!

Estive nos últimos dias pensando no tempo. E só posso reafirmar que ele é de fato relativo. Pensar sobre isso me tem sido ora um ácido, ora um bálsamo ao coração.
A gente só pára a pensar no tempo, quando julga estar sem ele! E não se enganem que são os prazos do mestrado que estão me conferindo estas reflexões. Olhem só, os prazos ajudam a refletir!

Em primeiro lugar, pensei como o tempo para se tornar um Mestre é reduzido em relação aos outros cursos, apenas dois anos. A Graduação geralmente quatro anos e o Doutorado também. Não menciono aqui as especializações porque as considero (talvez por preconceito) um aprofundamento sobre um tema específico (na prática, o Mestrado não tem sido muito diferente).

Retornando, mas como, só dois anos para se formar Mestre? Quem inventou esta lógica e o que está por traz dela? Verificando que a Graduação, por mais esforço que se faça em pesquisa, tem o objetivo central de formar profissionais. Então precisaríamos de um tempo maior para apreender com mais coerência os conteúdos de Pesquisa e reformular os nossos pontos de vista, nossas concepções ideopolíticas.

Daí os departamentos de pós-graduação, juntamente com os órgãos de fomento de pesquisa, nos dizem:
- Tudo bem! Você receberá uma “gorda” bolsa de um mil e duzentos reais só para se dedicar ao mestrado!

Muitos de nós respondemos:
- Oba! Tenho dois anos de tranquilidade só par estudar, para me dedicar a mim mesmo!

Seria verdade, se o ato formular e reformular-se, de conhecer, de tornar-se não fosse tão contraditório!
Inicialmente, nós vamos logo procurando investir a “farta bolsa” para pagar aluguel e alimentação. Muitos de nós tivemos de sair da casa dos pais, pois viemos de longe para estudar ou até já estamos de saco cheio da vidinha de adolescente. Além de profissionais formados, temos uma visão de mundo que em geral destoa dos nossos familiares, com seus conhecidos padrões.

Acresce-se a isto que nós mudamos e já temos mais consciência que a vida pode ser melhorzinha. Nós agora achamos ruim comer cuzcuz, cachorro quente e coxinha todos os dia. Também não é legal beber cerveja quente e vestir roupa com buraco, todas estas infelicidades que não incomodavam tanto na graduação. E outra, para produzir faz-se necessário silêncio, solidão, paz...
Sim, para quem conseguiu essa paz infernal, mais ainda para quem não conseguiu... Terapia! E isso custa um ou dois e até três olhos da cara, meu bem! Então, nos resta tomar cerveja, muita cerveja. Conhecer já não é fácil, ainda mais nas nossas condições e com os temas que escolhemos (só mazela!).

Ah sim, cerveja não é barato e ainda pode trazer uma culpa danada. Principalmente se substituir a velha e dispendiosa terapia! Qual remédio? Mais cerveja, cana, whisky, run, alfazema...
Tratando de outras questões menos imediatas. Falamos da conjuntura política na qual vivemos agora. Um marasmo total, um prozac coletivo. Muitos até falam em crise de identidade, prefiro dizer crise de associação, de estratégia política. E como não estamos alheios ao mundo, até porque nossos estudos são sociais, não dá para negar o esforço que temos que fazer em nos redefinir, reafirmar-se ou afirmar algo nesta conjuntura.

Não falei do que nos é exigido em troca da rica bolsa de estudos, não é? Tem que publicar, viajar (e agora nem tem mais alojamento do ME) para apresentar trabalhos, assistir palestras, não faltar às aulas e ainda, não poderá fazer outra coisa a não ser escrever dissertação. Contraditório? Impossível?

Ai, ai, bolsistas, cuidado! Vocês não venderam a alma ao diabo (este promete sucesso aos seus clientes). Você vendeu a alma a Deus! Aos deuses do conhecimento encastelado, da burocracia, do saber sem vida pulsante! E este deus ainda te diz, como é de praxe, que sua mísera bolsa não é um direito é uma GRAÇA e divina! E ainda, a culpa é sempre sua pelos pecados de querer ser autêntico, de escrever algo realmente original, de dedicar o tempo a ociosamente pensar, ler/fazer poesia e fazer sexo!

Enfim, ao menos que vendas a alma ao diabo, correndo o risco da sua dissertação ser entregue magrinha e/ou fora do prazo, ao final de dois anos de mestrado serás um ME... um MERDA! E com diploma.

Emanuelle Chaves Pinto





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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fé e luta

p.s: Esse texto é um afago no coração de uma pessoa que está muito desestabilizada com a inercia que o sistema a impõe.

Hoje vou ousar. Sim. Arriscarei falar em socialismo. Essa palavra que produz pânico nos ultraconservadores de direita, tem sumido dos movimentos de esquerda e muitas vezes transforma-se em jargões dos manuais dos desesperados. Merece voltar ao centro de nossa reflexão. Trago como ordem do dia o desafio de pensar na máxima de Marx e Engels: Trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro: uni-vos.
Mas por que mencionar o socialismo pós-queda do Muro de Berlim? Ao que consta na história contada pelos que venceram, o socialismo foi uma experiência que não deu certo e foi – logicamente – substituída por um projeto possível de sociedade, em que reina a sociedade civil organizada na lógica destrutiva, o Estado mínimo, o espetáculo, o consumo, a flexibilidade, a obsolescência programada. Na verdade, a dita “morte das utopias revolucionárias” nos programou, robotizou e usurpou a nossa capacidade de sonhar. Como diz Galeano “somos programados pelo computador”. Programados a não sentir, amar, sonhar e lutar de verdade.

Reivindicam direitos, seja de consumir água, roupa, educação, saúde, cultura de massa ou lazer, no lugar de lutar por uma sociedade emancipada. Sim. Emancipada de toda forma de propriedade. A palavra LUTA saiu de nosso vocabulário militante, ou seria militonto.
Certamente, os leitores de meus escarros de pessimismo vão pensar: mais uma reflexão dramática.
De fato, vejo-me constantemente rodeada de falas que não significam absolutamente nada, são meros devaneios doidos a me torturar como dizia a poesia. Apenas frases desconectadas e sustentadas pela retórica e pelo discurso. Coloca-se de cabeça para baixo o bom e velho Marx e deturpam sua análise, diga-se de passagem acertada, de que a matéria precede a idéia, e sendo assim, a prática antecede a teoria.

Mesmo que tudo pareça estagnado, com sindicatos paralisados, trabalhadores sem trabalho, movimentos cooptados, partidos e corações destroçados. Ainda que a educação massificada emburreça cada dia mais a classe que vive do trabalho e reproduza a ideologia dos que dominam. Mesmo que o Chico Buarque seja um ilustre desconhecido da grande massa amorfa e seja escutado nos carros importados de quem pode pagar 380 reais pelo seu show. Embora Galeano não possa ser recitado no horário nobre, a política não seja cultuada como arte e o Marx esteja aprisionado nas universidades sendo discutido por marxistas de armário que nunca participaram nem do Centro Acadêmico de sua faculdade.  Apesar de todas estas questões, e até outras que não estão aqui apontadas, e que eu, conhecidamente, seja uma pensadora pessimista. Esse texto é apenas uma pergunta otimista: como faremos para mudar o mundo?
Como – coletivamente – vamos reconstruir nossa capacidade de fazer do trabalho algo que transforme a natureza e os seres humanos sem produzir alienação? De que forma vamos desconstruir tudo que nos desumaniza, seja a pobreza, a ignorância ou inércia? Quando iremos nos juntar para construir uma sociedade sem leis, estatutos e prisões? Como nos uniremos para colocar os tijolos de uma nova terra em que o judiciário não precise dizer que é crime maltratar animais, dá palmada em crianças, ou ainda espancar mulheres, negros e homossexuais?

Respostas? Não tenho. Mas tenho fé. De que “nós somos do tecido de que são feitos os sonhos” e é por isso que uma voz crítica e dissonante do sistema, por mais debilitada, perseguida e desestimulada que ela esteja, sempre vai encontrar uma voz em que possa construir uma dupla, depois um trio, e após muita luta, um coral de vozes rebeladas.
É por isso que a esperança é uma das características mais importantes de um rebelde. A esperança e a capacidade de sonhar.

É a partir daí que tenho convicção política e fé na luta de que mudaremos o mundo. É uma questão de tempo e militância.